"El Rapto"

Ano: 2018
Selo: PWR Records
Gênero: Dream Pop, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Papisa e My Magical Glowing Lens
Ouça: Tulpa, Kόρη e Massagem Cardíaca
Nota: 8.6

Resenha: “El Rapto”, Cora

“Pela primeira vez
Eu desejei ter menos do que dez dedos nas mãos para roer
E mais espaço de memória para não esquecer
Que eu sempre posso encontrar o amor verdadeiro refletido no espelho
E quando chacoalham os galhos do pensamento
A ordem do silêncio virá de dentro
Quem eu desejo ser nessa constelação?
É a metástase da vida em geração”

O trecho breve destacado no interior de Kόρη, segunda música de El Rapto (2018, PWR Records), diz muito sobre a poesia intimista, doce e libertadora que invade o primeiro álbum de estúdio da dupla paranaense Cora. Composições movidas pela forte sensibilidade dos arranjos e versos, como um convite a se perder em um universo de emanações inebriantes, reflexões sobre a descoberta da feminilidade e, principalmente, o amadurecimento sentimental do eu lírico.

Inspirado no mito grego de Perséfone — divindade raptada por Hades e obrigada a viver no mundo inferior —, El Rapto discute o sufocamento do feminino frente ao controle de uma figura masculina. “Eu preciso respirar“, clama a voz de Kaíla Pelisser (sintetizador e voz) nos instantes finais de Massagem Cardíaca, faixa em que a poesia angustiada do álbum se revela com maior naturalidade, valorizando a inserção dos instrumentos detalhados pela parceira Katherine Zander (guitarra e voz), e os músicos Lorenzo Molossi (bateria), Lui Bueno (guitarra e voz) e Leonardo Gumiero (baixo, sintetizador, programação), esse último, produtor do disco.

Entre versos cantados em inglês, espanhol e português, cada fragmento do disco parece transportar o ouvinte para um novo território. São canções de amor (Santa Fé), instantes de parcial loucura (Eye Booger), medo (Massagem Cardíaca) e libertação (Tulpa), como se todos os espectros da alma feminina fossem detalhados. Composições que ampliam o universo conceitual apresentado durante o lançamento do EP Não Vai Ter Cora (2017), primeiro registro de inéditas da banda.

Para além do limite dos versos, musicalmente, El Rapto reflete a completa evolução e busca declarada da dupla curitibana por novas possibilidades. São camadas de ruídos, curvas instrumentais, respiros e atos grandiosos, sempre crescentes, como um complemento direto à construção das letras, estrutura evidente logo na faixa de abertura do disco, a climática Milonga. Um som labiríntico, mágico, feito para ser desvendado lentamente.

Exemplo disso está na produção minuciosa de Tulpa, terceira faixa do disco. Inaugurada pela inserção de batidas minimalistas, a canção ganha forma aos poucos, estabelecendo pequenas brechas para a inserção de guitarras volumosas, épicas, tocando a mesma psicodelia atmosférica de grupos como My Magical Glowing Lens. Um preciosismo que se reflete em Ada, oitava composição do álbum. A diferença está na forma como os músicos curitibanos passeiam por entre camadas de melodias etéreas, fazendo do canto enevoado uma extensão precisa da base instrumental.

Consumido pelos sentimentos, memórias e experiências particulares de Pelisser e Zander, El Rapto vai da explosão ao profundo recolhimento em um intervalo de poucos minutos. Difícil pensar no trabalho como uma obra de composições ou atos específicos, afinal, cada porção do álbum parece pensada em unidade. Da poesia vagarosa ao fino tecido instrumental que cobre as faixas, todos os elementos são revelados ao público em pequenas doses, como frações de uma obra em contínuo processo de formação.

 


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