"Em Busca da Viagem Eterna"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Rock Psicodélico, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Boogarins, Supercordas
Ouça: A Montanha Mágica, Do Caos ao Cosmos
Nota: 8.6

Resenha: “Em Busca da Viagem Eterna”, BIKE

A viagem continua. Dois anos após o lançamento do primeiro álbum de estúdio, 1943 (2015), os integrantes da banda paulista BIKE estão de volta com um novo registro de inéditas. Intitulado Em Busca da Viagem Eterna (2017, Independente), o lisérgico trabalho de nove faixas mostra o esforço de Julito Cavalcante (guitarra e voz), Diego Xavier (guitarra e voz), Rafa Bulleto (baixo e voz) e Daniel Fumega (bateria) em se reinventar dentro de estúdio. Melodias etéreas, distorções e vozes ecoadas que fazem a mente do ouvinte flutuar.

Inaugurado pela leveza de Enigma dos Doze Sapos, o novo álbum se revela sem pressa. Reflexo dos principais conflitos que a banda enfrentou durante a turnê do último disco, a canção de quase quatro minutos acaba se conectando de forma natural ao primeiro registro do grupo, efeito da sutil referência ao título de Enigma do Dente Falso. Um som reflexivo, quase espiritual, proposta que cresce durante a construção da psicodélica Do Caos ao Cosmos, segunda faixa do disco e um indicativo da poesia delirante que invade o trabalho.

Em A Divina Máquina Voadora, um curioso ponto de transformação. Entre sintetizadores enevoados e vozes que flertam com o R&B, o quarteto paulista colide duas décadas de referências de forma autoral, indo do Dream Pop/Shoegaze do My Bloody Valentine ao som eletrônico do Tame Impala em Currents (2015). Melodias ensolaradas que encolhem aos poucos, conduzindo o ouvinte para dentro da arrastada Terra em Chamas. Pouco mais de seis minutos em que guitarras, batidas e vozes encolhem e crescem a todo instante, bagunçando a percepção do ouvinte.

Do turbilhão psicodélico em Terra em Chamas o grupo pula para o pop-rock nostálgico da curtinha Transe. Difícil não lembrar de bandas como Unknown Mortal Orchestra e outros coletivos recentes, efeito da sonoridade leve e descomplicada que abastece a canção. Um respiro breve que antecede o completo delírio de A Montanha Mágica, sexta música do álbum. Entre versos que ecoam como um mantra — “Subi a montanha para ficar mais perto do céu” —, o quarteto paulista brinca com a aceleração dos arranjos, detalhando diferentes atos instrumentais.

Curva breve em direção ao passado, Sete Flechas e O Rei Lagarto traz de volta a mesma experimentação e guitarras incorporadas pela banda durante a produção do primeiro álbum de estúdio. Ruídos e distorções controladas que se completam com a letra alucinada da canção — “Acordei em outra dimensão“. O mesmo conceito onírico se repete ainda em Piscomagia, penúltima música do disco. Enevoada, a composição mergulha na mesma ambientação Lo-Fi de A Divina Máquina Voadora, estabelecendo um precioso diálogo com a obra de artistas como Real Estate e Mac DeMarco.

Escolhida para o fechamento do disco, O Retorno de Saturno segue vagarosa, sempre detalhista, revelando sintetizadores, efeitos e vozes que se movimentam de forma precisa. Propositado retrospecto, a canção acaba se apropriando de diversos elementos testados pela banda ao longo do trabalho, reforçando o aspecto cíclico em torno da obra. Arranjos e versos que recriam musicalmente o mesmo colorido lisérgico das imagens produzidas pela ilustradora Juli Ribeiro para cada uma das nove faixas do disco.

 

Veja também:


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend