"Ephemeral"

Ano: 2017
Selo: La Femme Qui Roule
Gênero: Eletrônica, IDM, Experimental
Para quem gosta de: Aphex Twin, Boards of Canada e ^L_
Ouça: Boards e Egoctrenic
Nota: 8.0

Resenha: “Ephemeral”, Plipp

Revisitar o passado sem necessariamente deixar o presente. Assim é o trabalho do mineiro Felipe Continentino em Ephemeral (2017, La Femme Qui Roule). Produzido sob o título de Plipp, projeto paralelo do baterista que vem experimentando com o jazz em carreira solo, o registro de 13 faixas rápidas passeia por entre diferentes campos da música eletrônica de forma atenta, estímulo para o universo de pequenas transformações e rupturas que o ouvinte encontra dentro de cada composição.

Da névoa de sintetizadores que se espalha na inaugural Egoctrenic, batidas eletrônicas e inserções minimalistas apontam grande parte das influências para o trabalho de Continentino. Difícil não lembrar da boa fase de Aphex Twin em Selected Ambient Works 85–92 (1992) ou mesmo da dupla britânica Autechre em obras como Tri Repetae (1995) e LP5 (1998), confessa inspiração para o trabalho do artista em cada fragmento instrumental ou batida construída ao longo do disco.

Dividido entre instantes de fúria e momentos de puro acolhimento instrumental, Ephemeral, como o próprio título revela, joga com os instantes. São rupturas, batidas assíncronas e sobreposições estéticas que forçam o ouvinte a dançar mesmo na curta duração de seus atos. Um bom exemplo disso está em Miniacid, música que assume diferentes formas e possibilidades em um intervalo de pouco mais de um minuto, prova da versatilidade de Plipp em brincar com o uso de texturas eletrônicas voláteis.

Em Boards, quarta faixa do disco, a clara articulação de um registro sereno, como uma fuga de todos os excessos e batidas rápidas que apresentam o trabalho. Ancorada de maneira explícita na obra do duo escocês Boards of Canada, a curta criação bebe do mesmo som cósmico que invade o último registro de inéditas da dupla, Tomorrow’s Harvest (2013). Sintetizadores atmosféricos que pintam um delicado pano de fundo para a base jazzística que Continentino detalha na bateria da canção.

Sempre versátil, Plipp passeia pelo disco costurando experimentos e faixas marcadas pela completa instabilidade dos elementos. Do sample torto em Rita?, passando quebra nas batidas de Garbaj, até alcançar a estranha brasilidade de Ondah, música que soa como um invento abortado por Bibio no começo de carreira, difícil encontrar em Ephemeral um possível ponto de equilíbrio, fazendo da constante fragmentação dos arranjos, batidas e vozes e grande acerto do trabalho.

Mesmo apoiado em uma série de referências e obras importantes para o amadurecimento da cena eletrônica, Ephemeral em nenhum momento oculta a identidade musical de Continentino. Da forma como as batidas se revelam ao longo do disco, sempre íntimas das trilhas e experimentos autorais do músico, passando pelo cuidado na inserção dos sintetizadores e bases atmosféricas, um mundo de formas e melodias parece jogar com a percepção do ouvinte, resultando em um trabalho que se desdobra de forma curiosa até o último segundo.