"Era Dois"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Indie Folk, Indie Pop
Para quem gosta de: Falso Coral, Silva e Johnny Hooker
Ouça: Eu Te Proíbo... e Gostar de Quem
Nota: 8.2

Resenha: “Era Dois”, Bemti

As lágrimas brotam de forma involuntária tão logo os primeiros versos Era Dois (2018, Independente) são declamados por Luís Bemti. “Quando eu era dois / E me vi metade / Em queda livre / Como fazer pra me reerguer?“, questiona o sorumbático eu lírico na introdutória faixa de abertura do trabalho. Frações poéticas que se revelam ao público em pequenas doses, sempre sensíveis, pessoais e naturalmente íntimas de seu realizador, ainda que próximas de todo e qualquer indivíduo romântico — seja ele sofredor ou não.

Consumido pela dor, cada elemento do registro de dez faixas — o primeiro de Bemti em carreira solo —, transita entre o peso da memória, o claro desejo de libertação e a busca inevitável por um novo amor. Canções despidas de qualquer traço de complexidade, efeito da profunda vulnerabilidade e entrega que orienta a composição dos versos, sempre honestos, feitos para serem cantados a plenos pulmões ou sussurrados em meio fungadas lamuriosas em um quarto à meia luz.

Eu te proíbo de ter / Esse poder sobre mim / Eu te proíbo de ver o que eu fiz e julgar o que é bom e é ruim / Eu te amei pra nunca mais“, cresce a letra de Eu Te Proíbo de Ter Esse Poder Sobre Mim, um fino retrato da poesia agridoce que recheia o disco. Instantes em que Bemti, bem como o próprio ouvinte, parece sufocar pelo peso da saudade, porém, respira aliviado, contemplando um futuro ainda incerto, por vezes sorridente e otimista — “Ah, tem muito mais / Que você não viu e que não vai ver e eu não vou deixar / Que você não viu / E eu não vou deixar“.

Interessante notar que mesmo entregue aos principais conflitos e clichês da vida amorosa, Era Dois se projeta como um disco atual, dialogando com uma série de temas recentes. Exemplo disso está em A Gente Combina, uma reflexão sobre os relacionamentos gerados a partir do Tinder e outros aplicativos de encontros. “Te mostrei o essencial / Dez retratos, uma frase / Parecer meio especial / No infinito de outras faces … E vamos falando até esquecer / Mais um desencontro pra não perceber / Que a gente combina / A gente combina“, canta.

Embora centrado no universo particular de Bemti, vide preciosidades como Gosta de QuemEra Dois a todo momento estabelece pequenas conexões instrumentais e poéticas com o trabalho de outros nomes da (nova) música popular brasileira. É o caso de Tango, bem-sucedido encontro com o pernambucano Johnny Hooker; Carta a um marinheiro, parceria com Marisa Brito; além da derradeira Outro, delicada criação ao lado da dupla Tuyo. Há espaço também para o pop eletrônico de Às Vezes Eu Me Esqueço de Você, colaboração com Natália Noronha que parece destoar do restante da obra, entretanto, em nenhum momento prejudica o rendimento do disco.

Doloroso e acolhedor na mesma proporção, Era Dois não apenas dialoga com o som que vem sendo produzido por Bemti no paralelo Falso Coral, como transporta o trabalho do músico mineiro para um novo território. Poemas confessionais que se espalham em uma rica base instrumental, costurando desde ambientações regionalistas, efeito da viola caipira que recheia o álbum, até inserções eletrônicas que ampliam os domínios da obra, reflexo da interferência direta do produtor Luis Calil (Cambriana). Melodias e arranjos coloridos que funcionam como um delicado contraponto ao tom cinza dos versos.

 


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