"Espiral de Ilusão"

Ano: 2017
Selo: Oloko Records
Gênero: Samba, MPB
Para quem gosta de: Paulinho da Viola, Rodrigo Campos
Ouça: Menino Mimado, Dilúvio da Solidão
Nota: 8.7

Resenha: “Espiral de Ilusão”, Criolo

O samba sempre fez parte da obra de Criolo. Da confessa educação musical​ ancorada em clássicos da música popular brasileira, passando pelo flerte em Linha de Frente, parte do elogiado Nó Na Orelha (2011), até alcançar a poesia metafórica e política de Fermento Pra Massa, fragmento de Convoque Seu Buda (2014), não é de hoje que o artista paulistano se distancia das rimas e batidas do Hip-Hop para subir o morro e abraçar o gênero que tanto o seduz. Uma busca declarada por novas possibilidades, melodias e personagens, mas que alcança melhor refinamento em Espiral de Ilusão (2017, Oloko Records), obra inteiramente dedicada ao samba.

Da imagem de capa do disco, trabalho que conta com a assinatura do designer gráfico e ilustrador paranaense Elifas Andreato, artista que já trabalhou com nomes como Chico Buarque (Ópera do Malandro), Martinho da Vila (A Rosa do Povo) e Paulinho da Viola (Nervos de Aço), passando pelo cuidado na composição dos arranjos, resultado da parceria entre os colaboradores Marcelo Cabral e Daniel Ganjaman, Criolo vai além de uma simples “homenagem”. Trata-se de uma obra que incorpora com originalidade e reverência diferentes aspectos do gênero.

Enquanto a batida do samba e o toque do cavaquinho deliciosamente transportam o ouvinte para dentro do trabalho, conceito reforçado logo na a inaugural Lá Vem Você, nos versos, Criolo brinca com a construção de um cenário diverso, sempre colorido e atual. Ao mesmo tempo em que dialoga com a periferia paulistana, caso do repente na derradeira Cria de Favela (“Eu vivo a sofrer / Criado em favela é melhor não mexer“), o artista aproveita para mergulhar na construção de diferentes personagens (Filha do Maneco), sentimentos confessos (Dilúvio de Solidão) e desilusões (Calçada).

A busca por novas sonoridades e temas urbanos em nenhum momento interfere na poesia política produzida pelo rapper/cantor desde o primeiro álbum de estúdio, Ainda Há Tempo (2006). Terceira faixa do disco, Menino Mimado talvez seja o melhor exemplo disso. “Este abismo social requer atenção / Foco, força e fé, já falou meu irmão / Meninos mimados não podem reger a nação“, canta em uma clara provocação ao governo dominado por representantes políticos de pouco (ou nenhum) contato com a população – seja ele o novo prefeito de São Paulo, João Dória, ou o atual Presidente da República, Michel Temer.

Surgem ainda fragmentos temperados pelo bom humor, caso de Boca Fofa (“O Boca Fofa é recorrente de um adjetivo da questão / Se faltei com a verdade, não sei falar com um irmão“). A crítica social na metafórica Hora da Decisão (“Da brincadeira real / De polícia e ladrão / Sai da área e afasta a bola / É hora da decisão“). Versos sufocados pela angústia na quarta faixa do disco Nas Águas (“Sorrisos são costurados com faceiras situações / Já sorvi os meus limões, já sorvi os meus limões / Agora vou me banhar, pedir perdão“). Uma clara transposição da rima afiada de Criolo para um novo território.

Versátil, íntimo da mesma pluralidade de referências que marcam os dois últimos trabalhos de Criolo, principalmente o urbano Convoque Seu Buda, Espiral de Ilusão amplia consideravelmente o repertório do artista paulistano. Um fino exercício autoral, curioso e ao mesmo tempo seguro quando observamos outras incursões recentes de rappers pelo samba, vide o estranho Marcelo D2 Canta: Bezerra da Silva (2010). Do romantismo em Lá Vem Você ao jogo de versos que se cruzam na derradeira Cria da Favela, uma curva leve, porém, bem-sucedida dentro da recente trajetória do artista.

 

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