Resenha: “Essa Noite Bateu Com Um Sonho”, Terno Rei

Categories Melhores Discos, Resenhas

Artista: Terno Rei
Gênero: Dream Pop, Indie, Alternativo
Acesse: http://ternorei.com.br/

 

Um sussurro angustiado entre os versos de Criança – “As coisas que eu perdi / Nunca voltam” –, e a essência melancólica da Terno Rei se revela por completo em Essa Noite Bateu Com Um Sonho (2016, Balaclava Records). Sucessor do delicado Vigília (2014), o segundo álbum de estúdio do quinteto paulistano nasce como uma extensão madura do som intimista que há tempos orienta a obra de Ale Sater (voz e baixo), Bruno Paschoal (guitarra), Greg Vinha (guitarra), Luis Cardoso (bateria) e Victor Souza (percussão).

Produzido em um intervalo de quase dois anos, o registro que conta com produção assumida pelo músico Guilherme Chiappetta, parceiro do grupo desde o primeiro álbum de estúdio, mostra a busca do quinteto pela construção de um material cada vez mais complexo, soturno e alimentado de forma explícita pelos detalhes. Memórias de um passado ainda recente, confissões e delírios psicodélicos. Composições em que a poesia sorumbática do grupo dialoga diretamente com o ouvinte.

A letra cíclica em Sinais (“Sina, sina, sina, sina / Espero te encontrar”), um labirinto de guitarras e cores em Circulares, a poesia descomplicada que se espalha entre os ruídos de Para o Centro. São versos, melodias e estilhaços instrumentais que servem de estímulo para atrair a atenção do público, convidado a provar de cada momento, detalhe ou verso subjetivo que se espalha ao fundo do disco. Uma clara evolução quando observamos a ambientação tímida do antecessor Vigília.

Entre versos marcados pela saudade (“Solidão se põe / no fundo da janela”), temas existencialistas (“Eu era ele / Ou era eu mesmo / Desde o começo”) ou mesmo reflexões típicas de jovens adultos (“Conheço bem a madrugada / Ela é minha sina”), a nítida interferência de cada integrante da banda. São melodias encorpadas por arranjos minuciosos, sempre nostálgicos e empoeiradas. Ruídos e distorções climáticas dançam pelo tempo, incorporando diferentes aspectos do Dream Pop e até instantes em que o grupo flerta com a psicodelia.

Menos hermético e claramente polido em relação ao trabalho entregue dois anos antes, o novo álbum parte exatamente de onde a banda parou há poucos meses, durante o lançamento do single Trem Leva Minhas Pernas (2015). São arranjos abertos e melodias envolventes, sonoridade que cresce durante a construção da romântica A Prosa, sexta faixa do disco. Momentos que distanciam o trabalho produzido pelo quinteto de uma atmosfera exageradamente densa, sufocante.

Influenciado de maneira confessa pela obra de artistas como Fleetwood Mac, Beach House, Built to Spill e Sharon Van Etten, Essa Noite Bateu Com Um Sonho cobra do ouvinte uma audição atenta. São pinceladas instrumentais, versos e referências talvez ocultas durante uma passagem rápida pelo disco. É preciso tempo até saborear o álbum em totalidade. Tal qual a capa do registro, ilustração que conta com a assinatura de Greg Vinha, fragmentos e formas abstratas que se encaixam de forma a reproduzir uma imagem delicada e harmônica.

 

Essa Noite Bateu Com Um Sonho (2016, Balaclava Records)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Ombu, Bilhão e Câmera
Ouça: Criança, Sinais e Circulares

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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