"Esú"

Baco Exu do Blues

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap, Trap
Para quem gosta de: Djonga e Don L
Ouça: En Tu Mira, Te Amo Disgraça e Abre Caminho
Nota: 9.0

Resenha: “Esú”, Baco Exu do Blues

Caos urbano, religiosidade, tormentos e conflitos pessoais. É necessário tempo até perceber (e absorver) todas as nuances, referências vindas de diferentes campos culturais, credos e experiências intimistas que marcam o primeiro álbum do baiano Diogo Moncorvo como Baco Exu do Blues, Esú (2017, Independente). Uma obra montada a partir de pequenos excessos e delírios pessoais, como uma representação particular da figura mitológica que o rapper original de Salvador, Bahia, sustenta como parte da própria identidade criativa.

Nascido de pequenas conexões que passam por elementos cultura Iorubá, esbarram na música negra de Chico Science e Nação Zumbi, Tim Maia e Racionais MC’s, detalham citações literárias (Jorge Amado) e cinematográficas (Pedro Almodóvar), o trabalho de essência anárquica cresce como uma obra muito maior do o mero conjunto de dez faixas parece resumir. O próprio título da obra – um provocativo jogo de palavras entre “Jesus” e “Exu” –, indica o propositado escárnio e versatilidade de Moncorvo, postura reforçada durante toda a execução da obra.

Madura continuação do material que vem sendo produzido pelo artista desde o lançamento de músicas como Sulicídio, 999 e Sujismundo, Esú não apenas amplia o domínio criativo de Moncorvo, como parece dialogar com uma parcela ainda maior do público – marginalizado ou não. “Metade homem, metade deus“, como entrega a faixa-título do disco, o rapper atravessa o trabalho de forma atenta, mergulhando em letras tomadas pela forte religiosidade (Abre Caminho, Senhor do Bonfim), memórias da infância (Capitães de Areia), principalmente, relações pessoais.

Perfeita representação disso está no romantismo torto e profundamente honesto que invade a confessional Te Amo Disgraça, nona composição do disco. Versos que passeiam pelo cotidiano cru de um casal (“Bebendo vinho / Quebrando as taça / Fudendo por toda casa / Se divido o maço, eu te amo desgraça“), confessam intimidades (“Oral na minha mulher, é minha oração“) e corrompem de forma autoral os principais clichês de uma canção de amor (“Quebramos outro colchão / Foda-se transar no chão / Até que a morte nos separe ou então a prisão“).

Curioso perceber nas canções de Esú o fortalecimento de uma obra que parece ir além do inevitável domínio das rimas. De fato, da abertura do disco, em Intro, parceria com KL Jay, ao último verso de Imortais e Fatais, sobrevive na fina tapeçaria de samples e toda a base instrumental do registro a verdadeira riqueza do trabalho. Guitarras carregadas de efeito no manguebeat de Capitões de Areia, o canto religioso em Abre Caminho ou mesmo a batida seca de A Pele que Habito. Nada que se compare ao trap melódico de En Tu Mira, composição que se recorta trechos de Tu Mira, criação de Lola Y Manoel eternizada na trilha sonora do filme Kill Bill: Volume 2 (2004), servindo como alicerce para a poesia angustiada de Moncorvo.

Nascido das inquietações que bagunçam a mente do rapper baiano, Esú faz de cada composição o fragmento de uma obra essencialmente turbulenta, caótica. Junto de Moncorvo, um time seleto de colaboradores. São nomes como Nansy Silvvs, produtor responsável por parte expressiva do disco, o backing vocal de Ellen Andrade e Cibelle Moncorvo, além de um imenso catálogo de samples que vai de Espumas ao Vento, do cearense Fagner, ao batuque tribal de Festa de Candomblé do cantor Martinho da Vila. Retalhos de uma obra que parece maior e ainda mais insana e provocativa a cada nova audição.

 

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