"Far from Over"

Ano: 2017
Selo: ECM
Gênero: Jazz, Experimental
Para quem gosta de: Kamasi Washington e Rudresh Mahanthappa
Ouça: Nope e Down To The Wire
Nota: 8.0

Resenha: “Far from Over”, Vijay Iyer Sextet

Distante de qualquer certeza, a música do nova-iorquino Vijay Iyer parece feita para que o ouvinte se perca dentro dela. Seja no minimalismo hipnótico de obras assinadas individualmente, caso dos excelentes Solo (2010) e Tirtha (2011), ou em trabalhos de essência colaborativa, como o bem-sucedido A Cosmic Rhythm With Each Stroke (2016), encontro musical entre o pianista e o saxofonista Wadada Leo Smith, sobram composições e registros guiados em essência pelo experimentalismo precioso de cada ato.

Longe de parecer uma novidade, é exatamente isso que o ouvinte encontra nas dez composições que marcam o intenso Far from Over (2017, ECM). Ainda que guiado pelos pianos versáteis do músico nova-iorquino, cada fragmento do trabalho nasce como uma obra entregue ao delírio criativo de um time seleto de instrumentistas norte-americanos. Instantes em que Iyer vai da colisão criativa em Poles ao quase silenciamento da derradeira Threnody, música que poderia facilmente ser encontrada em qualquer álbum solo do pianista.

Em um intervalo de quase 60 minutos de duração, Iyer parece brincar com as possibilidades, indo do jazz dos anos 1950 ao completo experimentalismo em poucos segundos. Junto do pianista, o experiente Graham Haynes (corneta, flugelhorn, efeitos eletrônicos), o baixista Stephan Crump, os dois saxofonistas, Steve Lehman (alto) e Mark Shim (tenor), além do baterista Tyshawn Sorey. Músicos convidados a ampliar os domínios criativos do nova-iorquino, fazendo de cada instante do álbum um objeto precioso.

Exemplo disso está na crescente Down To The Wire. Inaugurada pelos pianos e temas atmosféricos explorados por Iyer, a canção repentinamente explode em uma nuvem de sons ruidosos, quebras e pequenas curvas rítmicas que arremessam o ouvinte de um lado para o outro. São quase oito minutos em que o sexteto se reveza na construção de um som que bagunça a interpretação do público, fazendo da canção um brilhante ziguezaguear de referências que descansa apenas na última nota da canção.

O mais interessante talvez seja perceber em Far from Over uma obra em que Iyer parece testar os próprios limites, provando de novas referências e temas instrumentais na todo momento. Exemplo disso está na sexta faixa do disco, From Amiri Baraka. Dedicada ao poeta norte-americano de mesmo nome, a canção de temas melancólicos nasce como uma curva criativa em relação ao material explorado no restante da obra, lembrando o Radiohead em seus momentos de maior tristeza no interior de obras como The Bends (1995) e OK Computer (1997).

Com mais de duas décadas de carreira completas, Vijay Iyer faz de Far From Over uma obra que desafia o próprio. Enquanto preserva a essência dos últimos discos, fazendo dos pianos um elemento de destaque durante toda a execução da obra, não há como negar a força dos demais envolvidos no processo de amadurecimento do trabalho, como se o pianista nova-iorquino se curvasse, criando pequenas brechas a serem preenchidas pela sutil inserção de novos instrumentos, o que faz do álbum uma obra mutável do primeiro ao último instante.

 

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