"Filha de Mil Mulheres"

Clau Aniz

Ano: 2018
Selo: Mercúrio
Gênero: Indie, MPB, Slowcore
Para quem gosta de: Duda Brack, Ava Rocha e Josyara
Ouça: Ana Luisa e Romana
Nota: 8.0

Resenha: “Filha de Mil Mulheres”, Clau Aniz

Denso e lento, Filha de Mil Mulheres (2018, Mercúrio Música) ganha forma aos poucos, detalhando emoções e memórias sutilmente corrompidas pela dor. Primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora cearense Clau Aniz, o trabalho de movimentos contidos, quase calculados, oculta e, ao mesmo tempo, revela um mundo de pequenos detalhes, histórias e sentimentos marcados pela profunda honestidade dos versos. Canções guiadas pela melancolia do feminino, veste poética que cobre toda a superfície do registro.

Obra de detalhes, o álbum de nove faixas se abre a todo instante para a breve interferência de um time seleto de vozes e instrumentistas. Além da produção assinada pela própria artista, o trabalho conta ainda com co-produção, bateria e percussão de Júnior Quintela; co-produção, guitarras e sintetizadores de Yuri Costa; baixo de Caio Castelo e sintetizadores de Ayrton Pessoa, além, claro, da bem-sucedida colaboração de Vitor Colares, Aparecida Silvino, Fernando Lélis, Felipe Couto, Rennan Ramos e Flávia Cabral. Uma delicada trama melódica que se espalha em meio a pequenas costuras instrumentais e camadas cada vez mais profundas, como se diferentes obras fossem condensadas em um único registro.

Vem ver o meu mundo, vem ver“, convida Aniz logo nos primeiros minutos do disco, em Berro. Entre versos românticos (“Eu vou decorar minha sala / Com o teu amor / E me alimentar todos os dias / Da tua dor“) e ambientações sutis, Aniz estabelece parte da atmosfera que acolhe e sufoca o ouvinte durante toda a execução do trabalho. São variações climáticas, pianos e uma percussão minimalista que vai dos clubes de jazz ao mesmo universo entristecido de clássicos do slowcore, como Moon Pix (1998), de Cat Power.

Concebido em uma medida própria de tempo, Filha de Mil Mulheres faz de cada composição um objeto de merecido destaque, detalhando vozes, ruídos e guitarras que parecem confessar segredos. Exemplo disso ecoa com naturalidade na extensa Romana. São pouco mais de oito minutos em que Aniz parte de uma ambientação contida, quase anêmica, para, logo em seguida, revelar uma rica tapeçaria instrumental. Frações melódicas que se entrelaçam de forma vagarosa, sem pressa, estrutura que volta a se repetir na semi-psicodélica Voyage Roset, faixa montada a partir de arranjos fracionados, como um colorido mosaico de ideias.

Dos poucos momentos em que corrompe a estrutura contida do disco, são as batidas de Quintela e a voz forte de Aniz que capturam a atenção do ouvinte. Síntese dessa propositada mudança de direção ecoa com naturalidade na sequência formada por Mamulengo Forasteiro e Ererê. São pouco mais de dez minutos em que o ouvinte é arrastado para dentro de um verdadeiro turbilhão criativo, efeito reforçado pela percussão tribal que conecta as duas canções.

No restante da obra, a força dos sentimentos e movimentos calculados de Aniz. São músicas como Ana Luisa (“Meu coração / Plantado à tantas mãos / Na calçada de casa / Florescerá“) e Quero Te Guardar Nesse Lugar Bonito Que é o Mundo (“Fale aos quatro ventos / Que eu nunca soube te cuidar / Diga que viveu uma mentira“) em que a cantora cearense discute ancestralidade feminina, desilusões e libertação pessoal de forma sempre detalhista, mágica, fazendo dos próprios conflitos a ponte para se relacionar diretamente com o ouvinte.



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