"Filho do Meio"

Ano: 2017
Selo: Geração Perdida
Gênero: Indie, Eletrônica
Para quem gosta de: Sentidor e Lupe de Lupe
Ouça: Fantasmas e Sorriso Amarelo
Nota: 8.2

Resenha: “Filho do Meio”, Jonathan Tadeu

Em meio ao ambiente denso e melancólico de Queda Livre (2016), segundo registro em carreira solo do mineiro Jonathan Tadeu, o minimalismo eletrônico de Sorriso Besta parecia surgir como uma fuga conceitual do som produzido pelo artista desde o debut Casa Vazia (2015). Uma lenta sobreposição de batidas e melodias sintéticas, delicado pano de fundo para a poesia sensível, sempre intimista e particular assinada pelo artista de Belo Horizonte. Isolada, uma curva instrumental que cresce de forma a ocupar o terceiro e mais recente álbum do músico, Filho do Meio (2017, Geração Perdida).

Precioso exercício criativo, o trabalho finalizado em poucos meses reforça a comunicação e forte relação de proximidade entre Tadeu e o parceiro de produção do disco, o músico João Carvalho (El Toro Fuerte, Sentidor, Rio Sem Nome). Em um intervalo de apenas 26 minutos, tempo de duração da obra, lembranças recentes e reflexões sobre o cotidiano do próprio artista delicadamente dançam na cabeça do ouvinte. Um som doce, leve, como um breve respiro dentro da presente fase na carreira do cantor mineiro.

Agradeça aos fantasmas que não te deixaram dormir / Eles vão te levar pra casa quando não houver mais ninguém“, canta na inaugural Fantasmas, um indicativo da poesia intimista que rege o trabalho. Composições que atravessam o centro de Belo Horizonte (Deus Sempre Mata Os Saudosistas Primeiro), mergulham no universo particular de Tadeu (Festa de Despedida) e ainda resgatam memórias de forma sempre acolhedora, caso de Lupe de Lupe, música que fala sobre a relação do artista com o grupo mineiro de mesmo nome.

Da mesma forma que em Queda Livre, Tadeu continua a investir na construção de versos descritivos, detalhando cenários e histórias curtas dentro de cada composição. Um bom exemplo disso está em Sorriso Amarelo, segunda faixa do disco. “2016 eu toquei num festival pra mais de mil pessoas / E muita gente imaginou que eu era a banda de abertura … Um vocalista meio exótico / E o batera também / Dois negros no lugar errado“, canta em uma provocativa reflexão sobre racismo e o completo apreço pela música — “Eu só tenho a música“.

Em se tratando dos arranjos e toda a atmosfera criada para o disco, Filho do Meio encanta pelo completo refinamento e entalhes eletrônicos de cada composição. São ruídos que se convertem em música, caso da inaugural Fantasmas; batidas e melodias crescentes em Sorriso Amarelo, o som atmosférico que completa a gravação caseira da entrevista em Lupe de Lupe. Pianos, samples e costuras etéreas, como um complemento direto à poesia de Tadeu. De forma autoral, uma continuação segura do mesmo material produzido por Carvalho em Memoro Fantomo_Rio Preto e Rio Sem Nome, ambos de 2016.

Mais do que uma obra de certezas, Filho do Meio se revela como um experimento temporário dentro da discografia de Jonathan Tadeu. São composições curtas, talvez incompletas, efeito do som atmosférico que conforta e cerca o ouvinte durante toda a execução da obra. Fragmentos e pinceladas econômicas que convidam o ouvinte o ouvinte a se aventurar pelo cotidiano do músico mineiro. Um misto de delírio e realidade, efeito da contrastada sobriedade dos versos e permanente leveza incorporada aos arranjos.

 

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