"Fodido Demais"

Ano: 2017
Selo: Balaclava Records
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Lucas Santtana, Wado
Ouça: Peixe Voador, Eletricidade
Nota: 7.5

Resenha: “Fodido Demais”, Do Amor

Poucas bandas atuais parecem capazes de replicar o mesmo espírito e bom humor do rock nacional dos anos 1980/1990 quanto o coletivo carioca Do Amor. Da mistura de ritmos que marca o homônimo álbum de estreia, lançado em 2010, passando pelos excessos e profunda imersão nas canções de Piracema (2013), sobram experimentos dentro de estúdio e faixas abastecidas por boas guitarras, conceito que volta a se repetir no terceiro e mais recende disco da banda, Fodido Demais (2017, Balaclava Records).

Explícito meio termo entre os dois últimos discos da banda, o registro de 11 faixas e pouco mais de 40 minutos de duração escapa dos exageros de Piracema em prol de um trabalho essencialmente dinâmico, rápido. Como indicado logo na abertura do álbum, na enérgica Peixe Voador, guitarras e vozes se esbarram durante toda a composição do projeto. Uma fuga de possíveis excessos, resultado do esforço coletivo entre Bubu (guitarra e voz), Gustavo Benjão (guitarra e voz), Marcelo Callado (bateria e voz) e Ricardo Dias Gomes (baixo e voz).

A mesma energia se repete ainda durante a construção da nonsense O Aviso Diz, música que se completa pela estranha citação ao “clássico” da New Wave Take My Breath Away, composição originalmente lançada pela banda Berlin para o filme Top Gun, de 1986. Para a faixa-título do disco, uma explosão de ruídos, versos declamados e a linha de baixo pulsante de Ricardo Dias Gomes. Um som propositadamente caótico, sujo, como uma versão brasileira (e louca) do mesmo material produzido pelo Pixies em obras como Bossanova (1990).

O maior peso na composição dos arranjos em nenhum momento interfere na busca do quarteto pelo uso descomplicado de temas regionais, referência que orienta o trabalho do grupo desde o primeiro disco. É o caso de Minhas Vozes, um samba torto, carregado de efeitos, distorções e versos bem-humorados. O mesmo conceito se reflete nas guitarras calorosas de Metaleiro Vento, canção de encerramento do disco e faixa que melhor incorpora a essência dançante de Isso é Carimbó e Perdizes, ambas apresentadas no álbum de estreia da banda.

A mesma temática regional acaba se refletindo também nos arranjos da colaborativa Frevo da Razão. Trata-se de um bem sucedido encontro entre o grupo carioca e o cantor paulistano Arnaldo Antunes. Além da parceria com o ex-integrante dos Titãs, Fodido Demais conta com uma breve interferência em Eletricidade, segunda faixa do disco. Um som enevoado, doce, resultado da perfeita aproximação o quarteto e os convidados da banda Os Quais.

Propositadamente instável, Fodido Demais mostra o esforço do grupo carioca em se reinventar a cada nova composição. O jogo de palavras e arranjos matemáticos em A Lince, sussurros intimistas em Eletricidade, o peso das guitarras em Fodido Demais. Uma constante fuga do óbvio, conceito reforçado logo na capa do trabalho — projeto gráfico que conta com a assinatura de Celina Kuschnir —, mas que acaba crescendo na inaugural Peixe Voador e segue até o último instante do trabalho, na derradeira Metaleiro Vento.