"Forever Neverland"

Ano: 2018
Selo: Columbia
Gênero: Pop, R&B, Dance
Para quem gosta de: Tove Lo e Charli XCX
Ouça: Red Wine, Trying to Be Good e
Nota: 5.5

Resenha: “Forever Neverland”, MØ

Em 2014, quando surgiu com No Mythologies to Follow, MØ parecia ser uma alternativa ao que havia de mais clichê do pop tradicional. Entre composições guiadas pela profunda honestidade dos versos e uma base instrumental marcada pelo completo frescor, cada elemento do disco parecia pensado para seduzir o ouvinte sem necessariamente repetir fórmulas desgastadas ou se ancorar na mesma estrutura incorporada por gigantes da indústria da música.

Triste perceber em Forever Neverland (2018, Columbia), primeiro registro em estúdio da cantora dinamarquesa em quatro anos, uma parcial quebra dessa identidade criativa. Ainda que preserve a essência explorada no álbum anterior, parte expressiva da obra parece apontar para o mesmo tropical house/pop eletrônico que vem sendo incorporado por nomes como Bebe Rexha, Tove Lo e Halsey. Canções que parecem dar voltas em torno de uma mesma estrutura melódica, vide faixas como Nostalgia, Blur, Way Down e toda a sequência de músicas trabalhadas pela cantora nos últimos meses.

Falta identidade ao disco, o que contribui para que MØ cometa um dos piores “crimes” da música pop: o de entregar ao público uma obra completamente esquecível. De fato, são poucos os momentos em que a cantora consegue atrair a atenção do ouvinte, sendo incapaz de repetir a mesma força de composições como Don’t Wanna Dance, XXX 88 e Walk This Way. Tudo se revela ao público de maneira formatada, plástica, como uma tradução simplificada do material entregue em No Mythologies to Follow.

Curioso pensar que este seja o trabalho que MØ mais contou com a colaboração de diferentes produtores. Mesmo regido pelo canadense Ajay Bhattacharya, o ST!NT, grande parte das canções contam com a interferência de nomes como Diplo, Hudson Mohawke, Frank Dukes e um time imenso de compositores. Mesmo a construção dos versos e vozes que recheiam o disco ganham forma na profunda interferência de artistas vindos de diferentes campos da música pop.

É justamente partindo desse encontro com Charli XCX (If It’s Over), Diplo (Sun in Our Eyes) e What So Not (Mercy) que MØ revela ao público algumas das canções mais significativas do trabalho. É o caso da quente Red Wine. Encontro musical com a norte-americana Empress Of, a faixa cresce em meio a versos pegajosos – “Sentindo-se como uma folha solta presa na árvore / Soprando no vento, me ajude a ser livre / Com suas mãos trêmulas, sim, coloque-as em mim” –, e uma base rítmica que vai do reggae ao pop de forma deliciosamente colorida, como um diálogo com o material entregue no álbum anterior. Surgem ainda preciosidades como Trying to Be Good, música assumida individualmente pela cantora e fuga declarada dos excessos que regem o disco.

Claramente pensado para atrair uma parcela ainda maior do público, Forever Neverland oscila entre instantes de profundo acerto e faixas completamente descartáveis, rasas. Não se trata de uma obra decepcionante, pelo contrário, boas composições podem ser encontradas a todo instante, mesmo na plasticidade das batidas e temas instrumentais que servem de complemento aos versos. Entretanto, ao estrear com um álbum tão bem-sucedido quanto No Mythologies to Follow, MØ acabou estabelecendo um padrão de qualidade que parece difícil de ser igualado.

 


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