"Freedom"

Ano: 2018
Selo: Sacred Bones
Gênero: Rock Alternativo, Rock Psicodélico
Para quem gosta de: U.S. Girls e Kevin Morby
Ouça: Believe, Blue Roses e Freedom
Nota: 8.5

Resenha: “Freedom”, Amen Dunes

Damon McMahon passou os últimos dez anos se revezando na produção de diferentes obras como Amen Dunes. Entre captações caseiras que deram vida ao inaugural D.I.A. (2009), trabalho gravado inteiramente dentro de um trailer, e passagens por diferentes estúdios nova-iorquinos, de onde fez brotar o maduro e musicalmente bem-resolvido Love (2014), cada novo álbum de inéditas do músico norte-americano parece transportar o ouvinte para dentro de território completamente remodelado, produto de um lento processo de amadurecimento do artista.

Com base nesse breve retrospecto, não chega a ser uma surpresa que Freedom (2018, Sacred Bones), quinto e mais recente álbum de inéditas como Amen Dunes, seja justamente o trabalho em que McMahon alcança seu melhor desempenho. Foram três anos de produção, incursões por diferentes estúdios — como o lendário Electric Lady, por onde passaram nomes como Jimi Hendrix, Frank Ocean e Stevie Wonder —, além de parceria com representantes vindos de diferentes campos da música.

Se há quatro anos, durante o lançamento de Love, foram os membros do Godspeed! You Black Emperor, o vocalista do Iceage, Elias Bender Rønnenfelt, e o saxofonista Colin Stetson que ocuparam as pequenas lacunas deixadas por McMahon, hoje, o time de colaboradores se expande. São nomes como Parker Kindred (Antony e The Johnsons) na bateria, o experiente Delicate Steve nas guitarras, Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs) no baixo, além, claro, da presença de Chris Coady (Beach House), produtor responsável por grande parte das faixas.

Toda essa articulação e profunda interferência criativa se reflete na formação de uma obra que parece maior a cada nova audição. Freedom, assim como o registro que o antecede, é um trabalho dominado pela força das canções. Poemas densos, quatro ou cinco minutos em que McMahon convida o ouvinte a se perder em um mundo de histórias, versos influenciados pela forte relação com os pais do cantor, a passagem do tempo, abusos com drogas, antigos heróis, fragmentos de histórias clássicas e reflexões pessimistas/realistas sobre a nossa sociedade. Doses controladas de caos que se convertem em música.

Exemplo disso está na crescente Believe, oitava canção do disco. Um ato longo, pouco menos de seis minutos em que McMahon passeia por entre ambientes descritivos (“Eu posso sentir isso no ar hoje à noite / O verão está quase pronto“) e inquietações intimistas (“Sim, a vida continua, e esta é apenas uma música / Mas ainda faço isso por você“). O mesmo cuidado se faz visível em Blue Rose, música em que explora a relação com o próprio pai (“Disse que você não era muito homem para mim / Mas você é o único que eu já tive“), e Miki Dora, uma curiosa análise sobre o personagem real do surfista que dá nome à canção (“O orgulho me destruiu, cara / E eu não sabia no negócio / Disse que iria chorar / Assustando o demônio em mim“).

Pontuado pela inserção de batidas ritmadas, guitarras psicodélicas à la Primal Scream e arranjos funkeados que se espalham por entre os versos, como pequenos diálogos instrumentais, Freedom praticamente força uma audição contínua por parte do ouvinte, do primeiro ao último acorde. Entre delírios, memórias e reflexões angustiadas, McMahon delicadamente amplia o universo autoral que vem sendo construído desde o primeiro álbum de estúdio, fazendo dos versos o principal componente para o fortalecimento da presente obra.

 


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