"Fundação"

Ano: 2018
Selo: Balaclava Records
Gênero: Rock Alternativo, Pós-Rock
Para quem gosta de: Kalouv, ruído/mm e Nvblado
Ouça: Se a resposta gera dúvida, então não é a solução
Nota: 8.5

Resenha: “Fundação”, E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante

Em 2014, quando os integrantes da banda paulistana E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante deram vida aos dois primeiros EP de inéditas da carreira, Vazio e um registro homônimo de quatro faixas, havia um claro interesse do grupo em mergulhar na formação de bases atmosféricas e ambientações extensas, naturalmente íntimas de clássicos do pós-rock concebido no final da década de 1990. Composições montadas em uma medida própria de tempo, sem pressa, como paisagens instrumentais deliciosamente trabalhadas de forma a hipnotizar o ouvinte.

Sem necessariamente perverter essa mesma estrutura detalhista que vem sendo explorada pelos músicos Lucas Theodoro, Luccas Vilella, Luden Viana e Rafael Jonke, curioso perceber no recente Fundação (2018, Balaclava Records), álbum de estreia do quarteto paulistano, um novo direcionamento estético. Como indicado durante o lançamento do Daiane, composição escolhida para anunciar o registro, o som pacato de outrora abre passagem para a formação de um material enérgico, por vezes urgente, como uma parcial fuga do conceito que vinha sendo explorado até o compacto Medo de Morrer / Medo de Tentar (2016).

Exemplo disso está na dobradinha composta pela faixa-título do disco e Karoshi, logo na abertura do trabalho. São pouco mais de cinco minuto em que guitarras carregadas de efeitos e batidas firmes se misturam a todo instante, resultando em um ato profundamente enérgico, ponte criativa para o restante da obra. Variações instrumentais que vão do pós-hardcore de grupos como Fugazi ao jazz, conceito reforçado de forma inteligente na curtinha Se fosse assim, onde iríamos parar?, composição que mostra a completa versatilidade do grupo.

Claro que a busca por um som menos contido não interfere na produção de faixas essencialmente detalhistas, íntimas dos antigos trabalhos da banda. É o caso de A Caminho De, música que preserva a aceleração imposta pelo quarteto, porém, se permite provar de pequenos respiros criativos e camadas instrumentais que refletem o esmero de cada integrante do EATNMPTD. Sétima canção do disco, Como aquilo que não se repete é outro recorte do álbum que chama a atenção pelas pequenas variações rítmicas. Arranjos que crescem em pequenas doses, como se pensados para cercar o ouvinte.

Dos poucos momentos em que o quarteto se distancia dessa predominante base enérgica, interessante perceber o surgimento de algumas das composições mais preciosas do disco. É o caso de Todos os dias sua lembrança me assola, mas não importa, música em que o grupo paulistano se permite provar de temas eletrônicos, jogando com a inserção de ambientações climáticas, sempre acolhedoras. Na derradeira Se a resposta gera dúvida, então não é a solução, guitarras e sintetizadores trabalhados de forma contida, ponto de partida para a poesia cíclica entoada pelos integrantes da banda como um mantra (“Se a resposta gera dúvida, então não é a solução / Se a resposta gera dúvida, então não é a solução“).

Passo além em relação ao material que vinha sendo produzido pela EATNMPTD, Fundação, como o próprio nome indica, estabelece uma série de novos conceitos, regras e preferências instrumentais do quarteto paulistano, servindo como alicerce criativo para os futuros registros da banda. É como se cada composição do disco fosse trabalhada como um objeto isolado, proposta que em nenhum momento prejudica a coerência da obra. Instantes de breve recolhimento, fúria e agitação que mostram a força e capacidade do grupo em se reinventar dentro de estúdio.

 


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend