"Gigantes"

Ano: 2018
Selo: Pirâmide Pertida
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Luccas Carlos e Akira Presidente
Ouça: Abebe Bikilia, Gigantes e Correria
Nota: 8.5

Resenha: “Gigantes”, BK

E eles falam que eu não sou o mesmo de antes / Fato, fui Cássius Klay voltei Muhammed“. O verso extraído de Abebe Bikila, colaboração com KL Jay que leva o título do próprio nome de BK, diz muito sobre o som produzido pelo rapper carioca em Gigantes (2018, Pirâmide Perdida Records). Obra de transição, o trabalho orientado pelo peso das batidas, novas possibilidades e rimas assume vívido distanciamento em relação ao material entregue no minimalista Castelos & Ruínas (2016). Trata-se de uma obra de ruptura. Composições marcadas pela quebra de velhos paradigmas e evidente desejo do artista em avançar criativamente.

Concebido em uma estrutura crescente, direcionamento explícito logo na inaugural Novo Poder — música que utiliza do sample de Robot Rock, da dupla Daft Punk —, Gigantes transporta o som produzido pelo rapper para um novo território. Como indicado no título do trabalho, BK rima sobre o próprio crescimento — pessoal e material —, refletindo sobre tudo aquilo que conquistou nos últimos anos, porém, olhando para frente, antecipando conflitos e desafios espalhados pelo caminho. “Eu quero ser maior que essas muralhas que eles construíram ao meu redor“, branda em Titãs, um indicativo da força poética que serve de sustento ao disco.

São composições marcadas pela sobriedade dos versos, como se mesmo guiado pela boa repercussão em torno da própria obra, BK fosse incapaz de sufocar pela vaidade. “Eu de rolé na lapa, policial me parou, pediu pra tirar uma foto / Vê que o mundo da voltas, até quem me odiava / Tá se abrindo mais que portas / Tá fingindo que se importa“, rima na já citada Abebe Bikila, música em discute os efeitos do bom trabalho em Castelos & Ruínas, conceito também reforçado na provocativa em Porcentos — “Querem me deixar tonto, tão correndo em círculos / Podem ficar com o trono se o castelo é um cubículo / Querem me cobrar igual conta / Eu me sinto forte igual Kunta“.

Entre versos guiados pela celebração, como na festiva Deus do Furdunço, composições marcadas pelo aprofundamento político, vide Exóticos e a temática da objetificação do corpo negro, BK cria pequenas brechas para a construção de músicas contemplativas, como na faixa-título do trabalho, além, claro, de canções guiadas pelo doce romantismo. É o caso de Planos, encontro com o parceiro de longa data, o rapper Luccas Carlos, e uma das criações mais sensíveis do disco — “Te olhando deitada na cama e o sol adora seu corpo / Da janela do quarto eu me sinto iluminado, abençoado / Tirando fotos suas e o coração dividido entre a real e a do retrato“.

Com base nessa imensa colagem de ideias e busca por novas temáticas, BK entrega ao público uma obra essencialmente ampla, maior a cada nova adição. Parte dessa estrutura se reflete na forma como os produtores El Lif Beatz, Arit, JXNV$, NAVE Beatz e Papatinho assumem a construção do disco. São variações instrumentais que apontam para o mesmo rap jazzístico de Madlib (Porcentos), canções mergulhadas em ambientações nostálgicas (Planos, Deus do Furdunço) ou mesmo faixas que distanciam o rapper de uma possível zona de conforto (Novo Poder).

A mesma pluralidade explícita na composição das batidas e versos se reflete no time de colaboradores que acompanham BK durante toda a execução da obra. São nomes como a conterrânea Juyè, na faixa-titulo do disco; o breve encontro com Baco Exu do Blues, em Vivos, música que ainda conta com a presença de Luccas Carlos; Marcelo D2 e seu filho, o rapper Sain, na provocativa Falam, além de Akira Presidente e a paulistana Drik Barbosa, parceiros na nova versão para a já conhecida Correria. Um criativo cardápio de ideias e que vai da colorida imagem de capa a cada novo fragmento poético que ganha forma e cresce de maneira explícita no interior da obra.