"Golden Hour"

Ano: 2018
Selo: MCA Nashville
Gênero: Country, Folk, Pop
Para quem gosta de: Miranda Lambert e Sufjan Stevens
Ouça: Space Cowboy e Love Is a Wild Thing
Nota: 8.5

Resenha: “Golden Hour”, Kacey Musgraves

Em um intervalo de poucos anos, Kacey Musgraves foi da jovem apaixonada que sussurrava confissões românticas nas canções de Same Trailer Different Park (2013), primeiro álbum de estúdio, para a rainha do baile conceitualmente detalhada no maduro Pageant Material (2015), segundo trabalho de inéditas da cantora. Um misto de passado e presente, fuga do óbvio e permanente busca por uma nova identidade artística, como se a artista de origem texana fosse do folk-rock explorado em meados da década de 1960/1970 ao country pop produzido no começo dos anos 2000.

Terceiro e mais recente álbum de inéditas de Musgraves, Golden Hour (2018, MCA Nashville) – sequência ao material entregue na coletânea natalina A Very Kacey Christmas (2016) –, talvez seja o trabalho em que todo esse conjunto de referências e preferências poéticas/instrumentais se conectam e crescem com maior naturalidade. Um lento desvendar de ideias e tendências que não apenas preserva a essência romântica detalhado nos dois primeiros discos da cantora, como convida o ouvinte a se perder em um mundo de novas possibilidades.

Exemplo disso está no uso de temas eletrônicos que sutilmente invadem o trabalho. São vozes robóticas, como na abertura e fechamento de Oh, What a World, sintetizadores empoeirados ao longo de Lonely Weekend e, principalmente, a busca por um som dançante em High Horse. Pouco mais de três minutos em que o country tradicional se encontra com as pistas e abraça elementos da música disco, transportando público e cantora para um território inusitado quando voltamos os ouvidos para o som originalmente testado em Same Trailer Different Park.

Importante notar que mesmo a parcial mudança de sonoridade em nada interfere no que há de mais sensível no trabalho de Musgraves: as letras. “Você olha pela janela enquanto eu olho para você / Dizendo ‘não sei’ … Você pode ter seu espaço, cowboy / Eu não vou cercar você / Vá em frente, vá embora em sua Silverado“, canta em Space Cowboy, uma dolorosa canção de amor que transporta para dentro do presente cenário toda uma variedade de elementos típicos do cancioneiro norte-americano — como a figura do cowboy, o ambiente isolado e o desencontro dos personagens.

A mesma força avassaladora se reflete em músicas como Love Is a Wild Thing, composição em utiliza de elementos da natureza como estrutura metafórica para a formação dos versos (“Correndo como um rio tentando encontrar o oceano / Flores no concreto / Escalada sobre cercas florescendo nas sombras … O amor é uma coisa selvagem“). Mesmo a curtinha Mother, composta em homenagem à mãe durante uma viagem de LSD, reforça a capacidade de Musgraves em traduzir sentimentos tão complexos de forma sensível e honesta (“Eu fico sentada e pensando sobre como o tempo que está escorregando / Sentindo falta da minha mãe“).

Pop sem necessariamente beber da mesma fonte criativa de nomes comerciais como Taylor Swift, Carrie Underwood, Musgraves segue em uma estrutura própria. Enquanto preserva o folk bucólico que tanto caracteriza o gênero – mergulhando em ambientações acústicas, como nas inaugurais Slow Burn e Butterflies –, perceba como a artista texana se permite provar de novas sonoridades dentro de estúdio. Não por acaso, Golden Hour chega até o público como uma obra guiada pela estrutura versátil dos arranjos e ritmos, porém, coesa na forma como a artista trabalha os próprios sentimentos em unidade, sempre mergulhada em experiências particulares.

 


3 thoughts on “Resenha: “Golden Hour”, Kacey Musgraves

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