"Grid of Points"

Ano: 2018
Selo: Kranky
Gênero: Dream Pop, Ambient Pop, Lo-Fi
Para quem gosta de: Juianna Barwick e Julia Holter
Ouça: Parking Lot e Driving
Nota: 8.0

Resenha: “Grid of Points”, Grouper

A voz etérea que ganha forma logo nos primeiros segundos de The Races funciona como uma clara despedida de Liz Harris do ambiente claustrofóbico apresentado em Ruins (2014). Quatro anos após o lançamento do último registro de inéditas, a cantora e compositora norte-americana parece investir na composição de um som claramente acolhedor e mágico, mesmo que doloroso em momentos específicos, base para cada uma das sete faixas que marcam o novo álbum como Grouper: Grid of Points (2018, Kranky).

Passagem para um universo próprio de Harris, Grids of Points, assim como o trabalho que o antecede, brinca com a incoerência dos instantes. São longas brechas silenciosas, como ao final de Driving, ruídos e interferências externas que a todo instante distanciam o ouvinte de uma obra convencional. Um convite a desvendar o universo de reverberações caseiras que orientam o trabalho da artista desde a boa fase, em Dragging a Dead Deer Up a Hill (2008).

Perfeita representação desse resultado está na faixa de encerramento do disco, Breathing. Em um intervalo de quatro minutos, tempo de duração da faixa, Harris não apenas confessa os próprios sentimentos, como delicadamente faz da canção um espaço aberto ao livre experimento. São vozes e melodias atmosféricas que mudam de direção a todo instante, brincando com a interpretação do público. O destaque acaba ficando por conta da captação de campo da artista, registrando a passagem de um trem em um intervalo de quase dois minutos.

A principal diferença em relação a tantos outros álbuns em que Harris joga com a inexatidão das formas está na busca declarada da artista por novas sonoridades. Exemplo disso está na lenta construção de Birthday Song, música em que o canto melancólico de Harris se espalha de forma harmônica, revelando melodias e sobreposições acústicas que naturalmente dialogam com o Chamber Pop. Proposta que afasta público e cantora das ambientações lo-fi que ocupam o restante da obra.

Interessante notar que mesmo entregue à busca de novas possibilidades, Harris mantém firme o diálogo com o mesmo universo conceitual apresentado no álbum anterior. Basta uma rápida passagem pelo canto restrito de Parking Lot, música escolhida para anunciar o disco, ou mesmo Driving, faixa em que Grouper brinca com o minimalismo dos temas, para se deixar conduzir pela experiência sensível que ganha forma ao longo do trabalho. Ideias e confissões entristecidas que provocam o ouvinte do primeiro ao último instante do trabalho.

Embora econômico – são pouco mais de 20 minutos de duração –, Grid of Points em nenhum momento se distancia dos principais trabalhos de Harris. Trata-se de uma obra guiada em essência pela força dos sentimentos, medos e confissões da cantora, como se do universo musical apresentado em  The Man Who Died In His Boat (2013), obra em que passou a explorar um conceito claramente acessível, a cantora fosse capaz de ir além, proposta reforçada durante toda a execução do presente álbum.