"Heaven and Earth"

Ano: 2018
Selo: Young Turks
Gênero: Jazz, Funk, Soul
Para quem gosta de: Thundercat e John Coltrane
Ouça: The Space Travelers Lullaby e Fists of Fury
Nota: 9.0

Resenha: “Heaven and Earth”, Kamasi Washington

Heaven and Earth (2018, Young Turks) não é simplesmente um disco. É um evento. Do coro de vozes assumido por diferentes representantes da música negra dos Estados Unidos, passando pelo seleto time de instrumentistas que acompanham o saxofonista em estúdio – Thundercat, Terrace Martin, Tony Austin, Ronald Bruner, Jr., Cameron Graves, Miles Mosley e Brandon Coleman –, cada elemento do novo álbum de Kamasi Washington se projeta de forma grandiosa, catártica, como uma extensão madura do som incorporado pelo artista durante o lançamento de The Epic, em 2015.

Talvez exigente para o ouvinte médio – são 16 composições extensas e mais de duas horas de duração –, o sucessor do EP Harmony of Difference (2017) naturalmente premia quem se aventura por entre suas faixas. Nada parece descartável, pelo contrário, todos os elementos do disco parecem pensados para atrair a atenção do público, como se da abertura, no juzz-funk-político de Fists of Fury, parceria com os veteranos Dwight Trible e Patrice Quinn, o espectador fosse magicamente conduzido até a derradeira Will You Sing. Um resumo criativo de tudo aquilo que Washington possibilita crescer no restante da obra.

De essência curiosa, Heaven and Earth é menos uma reverência aos clássicos, como The Epic, e muito mais um exercício de consolidação da própria identidade artística de Washington. Exemplo disso está em Connections, quarta faixa do disco. Em um intervalo de mais de oito minutos de duração, o músico norte-americana não apenas preserva a essência de veteranos do gênero, caso de Miles Davis na fase elétrica dos anos 1970, como se permite crescer dentro de estúdio, colidindo fórmulas instrumentais e um minucioso solo de guitarra que sutilmente distancia o saxofonista de possíveis holofotes.

Outra preciosidade do disco é a bossa nova futurística de Vi Lua Vi Sol. Ao mesmo tempo em que preserva a essência da música brasileira entre os anos 1950 e 1960, vozes carregadas de efeitos e pequenas experimentações transportam o ouvinte para dentro de um território marcado pelo ineditismo. Uma clara extensão do material apresentado um ano antes, em Integrity, música em que parecia flertar com a obra de Tom Jobim e Hermeto Pascoal. Mesmo nos momentos em que conversa com o jazz clássico, costurando orquestrações cinematográficas, como em The Space Travelers Lullaby, Washington em nenhum momento tropeça no óbvio, mudando de direção a todo instante.

O mais interessante talvez seja perceber que mesmo dentro desse universo tão particular, Washington a todo momento cria pequenas brechas criativas que autorizam a passagem do ouvinte. São versos acolhedores, como no soul de Journey – “Vida, amor e paz em meu coração / Aleluia, alegria floresce / E todo dia, um novo começo / Aleluia, alegria floresce” –; o diálogo com o Hip-Hop, em Street Fighter Mas, música que parece saída de algum disco do Flying Lotus, além de faixas como a tropical Hub-Tones, composição marcada pela inserção de elementos da música latina.

Concebido em um período de forte agitação criativa – somente no último ano, o saxofonista trabalhou ao lado de St. Vincent, Florence + The Machine, Everything Is Recorded e Ibeyi –, Heaven and Earth é o típico caso de uma obra que parece maior a cada nova audição. Da imagem de capa e projeto visual pensado de forma minuciosa pelo fotógrafo Mike Park, parceiro do saxofonista desde o lançamento de The Epic, passando pelas cinco faixas do complementar The Choice, álbum escondido na versão física do disco, Washington parece pensar em todos os elementos do trabalho, cuidado que se reflete até o último instante da obra.

 


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