"Heresia"

Djonga

Ano: 2017
Selo: Ceia Ent.
Gênero: Hip-Hop, Rap
Para quem gosta de: BK, Síntese
Ouça: Esquimó, Corre nas Notas
Nota: 8.8

Resenha: “Heresia”, Djonga

Respire fundo. Tome fôlego. Você vai precisar. Em avalanche de rimas tortas, batidas secas, ataques que não poupam ninguém e reflexões sóbrias sobre o cotidiano de qualquer grande cidade, o mineiro Djonga faz do novo álbum em carreira solo, Heresia (2017, Ceia Ent.), uma obra necessária. Letras que atravessam a periferia, discutem racismo, drogas, sexo e criminalidade sem necessariamente tropeçar no óbvio. Uma extensão madura de tudo aquilo que o rapper vem produzindo desde a estreia com O Bom Maluco ou mesmo em parceria com o coletivo DV Tribo.

Urgente, o trabalho de dez faixas se revela logo nos primeiros minutos. Da hipocrisia e corrupção pessoal escancarada nos versos de Corre nas Notas (“Esses manos são de dar dó / Mais falsos que Fábio Assunção parar de cheirar pó / Mais falsos que broxar pela primeira vez“), passando pela poesia caótica de Entre o Código da Espada e o Perfume da Rosa (“Sigo frio tipo a noite no Saara ó / A vida é um filme de terror / Sem diretor, sem tempo pra ensaiar / Eu tô num filme de terror“), Djonga passeia por diferentes histórias, cenas e personagens sem necessariamente manter o foco em um tema específico.

Um bom exemplo disso está no imenso catálogo de referências que abastecem a cinza Esquimó, terceira faixa do disco. Um olhar atento sobre a periferia (“Compare, o morro tem sua própria polícia / Bom ou menos mal, assim, afinal“), conflitos diários de diferentes personagens (“Bala nos inimigo, bala nos invejoso / Dinheiro pros amigos e muito ouro / Hoje somos riso, amanhã seremos choro“) e citações que vão de Pokémon (“Aqui não é Pokémon, e é Ratata“) a conterrâneos do rap nacional (“Jamais será Castelos & Ruínas / Quem é Rá-Tim-Bum / Quem errar ti bum / Vão tombar sem ser Karol Conká“).

Para a faixa-título do disco, um jogo de palavras e paralelos que transportam o ouvinte para diferentes cenários (“Rainhas vivem o drama / Da Rocinha ao Queens“). Em Fantasma, quarta faixa do disco, a desconstrução de referências religiosas (“Não sei se sou Jesus de bege ou o diabo de terno … É, peguei o errado rezando pro capeta“). Escolhida para o fechamento do disco, O mundo é nosso, parceria com o rapper BK, se aprofunda no debate racial que explode de forma criativa durante toda a construção do disco (“Homem negro, inferno branco, tipo Tarantino … Quilombos, favelas, no futuro seremos reis, Charles“).

Pontuado por instantes de breve respiro, Heresia cria pequenas brechas para que o ouvinte passeie pelo no universo intimista do rapper. “Ela disse que acredita em mim / Que se preciso vai me esperar até o fim / Eu imagino ela dizendo sim / Tipo Cleópatra dizendo sim“, rima em Verdades Inventadas, sexta faixa do álbum. Em Geminiano, uma análise sobre a instável relação de um casal (“Faço minha mala, dessa vez ela me puxa / Desfiz minha mala, dessa vez ela me chupa“), conceito reforçado em pequenas dualidades ao longo da música.

Imenso na composição dos versos, Heresia segue minimalista na construção das batidas e bases em grande parte das faixas. São beats secos, samples contidos e diálogos consideráveis com o Jazz. A busca declarada por um som homogêneo, mesmo na diversidade do time de produtores escalados para o trabalho — CoyoteBeatz, DJ Murillo, DK Cost, Pizzol, SlimBeatz e El Lif Beatz. Acertos, contrastes e pequenas desconstruções que vão da imagem de capa do disco, uma releitura do clássico Clube da Esquina (1972), mas que acaba crescendo em cada fragmento de voz do registro.

 


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