"Hunter"

Ano: 2018
Selo: Domino
Gênero: Rock Alternativo, Art Rock
Para quem gosta de: PJ Harvey e Patti Smith
Ouça: Don't Beat the Girl out of My Boy e Indies of Paradise
Nota: 8.0

Resenha: “Hunter”, Anna Calvi

Como um trovão, a voz de Anna Calvi surge invasiva, forte, ocupando toda e qualquer brecha acústica. Junto dela, blocos de guitarras carregadas de efeitos e batidas sempre complementares, como respiros pontuais que antecedem um instante de maior euforia. Nos versos, temas contemplativos, debates sobre gênero e a força do eu lírico feminino, proposta que ganha relevância ainda maior no terceiro e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora inglesa, Hunter (2018, Domino).

Furioso, como tudo aquilo que Calvi vem produzindo desde o primeiro registro de inéditas da carreira, um álbum homônimo lançado em 2011, Hunter segue em uma estrutura crescente e intensa até o último acorde. São camadas instrumentais que confessam algumas das principais referências da artista original de Twickenham, Inglaterra, como Patti Smith, Liz Phair e PJ Harvey, essa última, possivelmente a maior fonte de inspiração da musicista.

Exemplo disso está na explosiva Don’t Beat the Girl out of My Boy, composição escolhida para apresentar o disco e uma clara síntese do som que vem sendo produzido por Calvi. Vozes berradas que esbarram em guitarras ruidosas, lembrando a mesma intensidade de Harvey em obras como Rid of Me (1993) e To Bring You My Love (1995), trabalhos em que a poesia lasciva se amarra aos arranjos, conceito explorado em cada nota ou fragmento poético lançado por Calvi.

A mesma energia (e entrega) se reflete com naturalidade em outros momentos do disco. É o caso de Indies or Paradise, composição em que as guitarras de Calvi crescem desmedidas, caóticas e sempre trabalhadas em proximidade à voz forte da cantora. Entre flertes com o blues, Chain invade o mesmo universo de artistas como Florence + The Machine, efeito da forte similaridade do tom orquestral que corre ao fundo da canção, proposta que se repete em Wish e na própria faixa-título.

Mesmo nos instantes em que desacelera, como em Swimming Pool, Calvi mantém firma a essência detalhista do trabalho, costurando melodias pensadas para hipnotizar o ouvinte. Pinceladas instrumentais e vozes épicas, quase operísticas, como se a cantora se revelasse por completo dentro de estúdio. “Sombras da luz / Sombras se dividem na terra / Desça para a piscina / Abaixo vamos mergulhar / Até que a noite da terra / Desça para a piscina“, canta enquanto arranjos de cordas se espalham sem pressa, lembrando uma Kate Bush urbana, nada mística.

Concebido em parceria com o produtor inglês Nick Launay (Yeah Yeah Yeahs, Nick Cave and The Bad Seeds), Hunter mostra Anna Calvi em sua melhor forma. Da imagem de capa do disco, com a cantora suada e pronta para o ataque, passando pela estrutura catártica que embala os arranjos e vozes sempre grandiosas, poucas vezes antes a artista britânica pareceu tão dominante dentro de estúdio, fazendo do presente álbum uma extensão aprimorada de tudo aquilo que havia sido apresentado no antecessor One Breath (2013).

 


2 thoughts on “Resenha: “Hunter”, Anna Calvi

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