"I’ll Be Your Girl"

Ano: 2018
Selo: Capitol / Rough Trade
Gênero: Indie Folk, Indie Pop
Para quem gosta de: Okkervil River e Death Cab For Cutie
Ouça: Once In My Life e Severed
Nota: 6.5

Resenha: “I’ll Be Your Girl”, The Decemberists

Você não espera realmente que os integrantes do The Decemberists lancem um novo Picaresque (2005) ou The Crane Wife (2006), correto? Em um contínuo processo de transformação criativa, Colin Meloy e os parceiros Chris Funk, Jenny Conlee, Nate Query e John Moen passaram os últimos dez anos brincando com as possibilidades dentro de estúdio. Uma busca declarada por novas sonoridades que se reflete de maneira explícita nas canções de I’ll Be Your Girl (2018, Capitol / Rough Trade).

Primeiro registro de inéditas da banda em três anos, o sucessor de What a Terrible World, What a Beautiful World (2015) mostra o esforço do grupo de Portland em resgatar a grandiosidade poética dos primeiros discos, porém, mergulhando sempre em um oceano de temas melódicos que borbulham elementos típicos da música pop. Para além da atmosfera acústica que ajudou a consolidar o trabalho do quinteto, a busca declarada pelo uso de elementos sintéticos e pequenas inserções eletrônicas.

Pop quando exige ser, forte nos versos detalhados por Meloy, I’ll Be Your Girl faz de cada composição um objeto pronto para fisgar o público. Exemplo disso está em Severed, terceira faixa do disco. Inspirada pela campanha política que elegeu Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos, a canção de versos sóbrios mantém o aspecto denso até o último segundo, porém, carrega na base instrumental uma atmosfera colorida, quase dançante, efeito direto da inserção de sintetizadores.

A mesma estrutura se revela logo nos primeiros segundos do disco, em Once In My Life. Enquanto Meloy busca por um momento de breve conforto nos versos — “Pela primeira vez na minha vida / Alguma coisa poderia dar certo?” —, uma chuva de sintetizadores se espalha sem pressa, como um complemento ao coro de vozes, batidas e guitarras brandas que crescem no decorrer da canção. Um lento desvendar de ideias e diálogos com o pop rock dos anos 1980 que se reflete em músicas como Sucker’s Prayer e We All Die Young.

Entretanto, importante notar que a mesmo parcial mudança de sonoridade em nada interfere na produção de faixas que dialogam com os primeiros anos da banda. Perfeita representação disso está em Rusalka, Rusalka / Wild Rushes. São pouco mais de oito minutos em que Meloy e os parceiros de banda revelam ao público um ambiente colorido pela inserção de melodias acústicas e atos semi-orquestrais, como uma fuga dos temas frenéticos que invadem os minutos iniciais do álbum.

Concebido em parceria com o requisitado John Congleton (St. Vincent, Swans), I’ll Be Your Girl não apenas deve agradar antigos seguidores da banda norte-americana, como talvez seja o trabalho mais recomendado aos não iniciados na obra de Colin Meloy. Canções embaladas por temas melódicos e versos que mesmo acessíveis, em nenhum momento ocultam o esforço do grupo em desvendar um universo de temas cotidianos tão sensíveis quanto provocativos.