"I'm All Ears"

Ano: 2018
Selo: Transgressive
Gênero: Dream Pop, Synthpop, Indie Pop
Para quem gosta de: CHVRCHES, M83 e SOPHIE
Ouça: It's Not Just Me e Falling Into Me
Nota: 8.5

Resenha: “I’m All Ears”, Let’s Eat Grandma

Embora parte de um mesmo projeto, não há como ignorar o forte distanciamento entre as canções apresentadas no primeiro álbum de estúdio do Let’s Eat Grandma, I, Gemini (2016), e o recente I’m All Ears (2018, Transgressive). Enquanto o material entregue há dois anos parecia flutuar em um território de pequenas incertezas, indicando a timidez e inexperiência da dupla britânica formada por Rosa Walton e Jenny Hollingworth, hoje, cada composição que recheia o trabalho da banda reflete o completo amadurecimento de suas realizadoras.

Da atmosfera sombria que inaugura o disco em Whitewater, passando pela força na imposição dos versos de Snakes & Ladders, ao curioso experimento em Hot Pink, cada composição do álbum parece transportar o trabalho da dupla para um novo território. Uma busca declarada por novas possibilidades e ritmos, conceito que orienta de forma torta a experiência do ouvinte até a derradeira Donnie Darko, um ato extenso, pouco mais de 11 minutos de pura descoberta.

Parte dessa propositada mudança de direção nasce do forte diálogo da dupla com um time de novos colaboradores. Conhecido pelo trabalho ao lado de artistas como Bat For Lashes e Everything Everything, o produtor David Wrench garante leveza ao álbum, porém, preservando o aspecto torto dos arranjos e versos, reflexo da interferência pontual de SOPHIE e Faris Badwan (The Horrors) em algumas das principais músicas da obra. Canções como a grudenta It’s Not Just Me, reciclagem colorida do som originalmente testado por nomes como CHVHRCHES e Empress Of.

Ponto central do disco, Falling Into Me talvez seja a composição que melhor sintetiza essa força avassaladora que orienta o Let’s Eat Grandma em I’m All Ears. Dividida em pequenos blocos criativos, a faixa de quase seis minutos vai do breve silenciamento à explosão em poucos segundos, lembrando a mesma pluralidade rítmica incorporada pelo M83 em Midnight City, Wait e demais músicas do álbum Hurry Up, We’re Dreaming (2011). Uma criativa sobreposição de ideias que reflete não apenas o cuidado na produção dos arranjos e versos, mas, principalmente, a entrega da dupla britânica.

Exemplo disso está no minimalismo de Ava, décima faixa do disco. Despida de toda a euforia que orienta grande parte do trabalho, a canção guiada apenas pela voz e parcos sintetizadores mostra a força dos sentimentos que embalam o trabalho da dupla. “Eu sei que tenho que aceitar isso / Mas se ela tivesse me deixado / Eu estaria lá / Uma ou duas vezes / Novamente“, canta em uma amarga reflexão sobre a necessidade de seguir em frente e os conflitos da vida adulta, tema que acompanha o ouvinte durante toda a execução da obra.

Mesmo pensado para dialogar com uma parcela maior do público, conceito reforçado no explícito refinamento melódico dado ao álbum, I’m All Ears em nenhum momento ecoa como um trabalho raso. Pelo contrário, Walton e Hollingworth testam os próprios limites a todo instante, fazendo do registro uma coleção de faixas tão acessíveis quanto provocativas. Das paisagens instrumentais de Cool & Collected, com mais de nove minutos de duração, ao pop eletrônico e efêmero de Hot Pink, tudo se projeta de forma curiosa.

 


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