"Iridescence"

Ano: 2018
Selo: Question Everything / RCA
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Odd Future e Kids See Ghosts
Ouça: J'Ouvert, Honey e Weight
Nota: 7.0

Resenha: “Iridescence”, Brockhampton

De todos os fenômenos recentes do Hip-Hop norte-americano, o coletivo texano Brockhampton talvez seja um dos mais interessantes. Partindo de uma estratégia inteligente de produzir e lançar os três primeiros registros autorais em um intervalo de poucos meses, performances sempre caóticas, além, claro, de versos que refletem os inquietações de qualquer jovem adulto, o grupo comandado por Kevin Abstract não demorou a conquistar uma expressiva parcela do público e crítica, sendo convidado a participar de um sem-número de festivais e ingressar em um selo de grande porte, a gigante RCA.

Ponto de partida para essa nova fase na carreira do grupo, Iridescence (2018, Question Everything / RCA), quarto álbum de inéditas do Brockhampton, preserva o mesmo direcionamento torto que vem sendo explorado pelo grupo na trilogia Saturation (2017), porém, dentro de uma estrutura melódica, palatável e, naturalmente, próxima do grande público. Não por acaso, a boa repercussão em torno do trabalho fez com que o grupo alcançasse o topo da Billboard 200 logo na semana de lançamento do registro.

Claro que esse aspecto “comercial” dado ao disco em nenhum momento interfere no fluxo insano que vem sendo conduzido por Abstract desde as primeiras mixtapes. Como indicado logo nos primeiros minutos do trabalho, cada faixa busca suporte em um gênero ou conceito específico, discutindo política, racismo, drogas, sexo e criminalidade em uma estrutura tão próxima do rap dos anos 1980/1990 quanto do R&B/pop da presente década. Uma colagem de ideias que se reflete na interferência criativa de cada integrante da banda e até mesmo de seus convidados, como Jaden Smith, em New Orleans, e Serpentwithfeet, em Tonya.

Versátil, Iridescence carrega na incerteza do próprio fluxo (poético e musical) o principal componente criativo para o crescimento do trabalho. Instantes em que o lirismo raivoso do coletivo cresce desmedido, como em J’ouvert, faixa que soa como um encontro entre M.I.A. e Death Grips, mas que logo desemboca na pop econômico de Honey, um improvável respiro em meio caos conceitual que rege o disco. Rimas e batidas que se atravessam a todo instante, tornando a experiência do ouvinte sempre incerta, o que talvez desagrade quem busca por uma obra homogênea.

Musicalmente apurado quando próximo dos antigos trabalhos da banda, Iridescence carrega na base de cada canção um universo imenso a ser explorado pelo ouvinte. Há desde samples de Videotape, do grupo britânico Radiohead, até fragmentos poéticos de cantoras como Beyoncé. Mesmo músicas originalmente produzidas para a série Saturation são pontualmente resgatadas e adaptadas ao presente disco, vide a inserção de trechos de Bump na já citada Honey.

Primeiro capítulo de The Best Years of Our Lives, nova trilogia idealizada pelo Brockhampton, Iridescence segue exatamente de onde o coletivo texano parou no último ano, colidindo ideias, fórmulas instrumentais, samples e rimas sem ordem aparente. Composições que parecem maiores a cada nova audição, mesmo na simplicidade de seus atos. Trata-se de uma obra marcada pela completa imprevisibilidade de seus realizadores, como um esboço ainda incompleto de tudo aquilo que Abstract e seus parceiros de banda reservam ao ouvinte nos próximos meses.

 


2 thoughts on “Resenha: “Iridescence”, Brockhampton

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