"Joy"

Ano: 2018
Selo: Drag City
Gênero: Rock, Garage Rock
Para quem gosta de: Thee Oh Sees e Mikal Cronin
Ouça: Body Behaviour e Good Boy
Nota: 7.5

Resenha: “Joy”, Ty Segall / White Fence

O que acontece quando você une dois aficcionados pelo rock dos anos 1970 dentro de estúdio? A resposta para essa pergunta está em Joy (2018, Drag City). Segundo e mais recente álbum da parceria entre Ty Segall e White Fence, o trabalho de 15 faixas curtas se projeta como uma delirante viagem instrumental em direção ao passado. Canções em que a dupla norte-americana confessa o fascínio pela música produzida há mais de quadro décadas de forma criativa.

Tão descompromissado quanto o trabalho que o antecede, Hair (2012), cada fragmento do presente álbum convida o ouvinte a se perder em meio a guitarras carregadas de efeitos, instantes de puro delírio e vozes tortas. Do momento em que tem início, na caseira Beginning, passando por músicas como a divertida Hey Joel, Where You Going With That?, cada elemento do disco parece jogar com a incerteza, como um despojado registro das ideias e impressões de Segall e Fence dentro de estúdio.

Exemplo disso está nas menores composições que recheiam o trabalho. É o caso da acústica Room Connector, música que não apenas dialoga com a obra de veteranos do pop rock, como ainda serve de passagem para a canção seguinte, a colorida Body Behaviour. Na estranha Rock Flute, pouco menos de 30 segundos de pura experimentação, como se a dupla norte-americana fosse de encontro ao mesmo território insano de Frank Zappa em The Mothers of Invention We’re Only in It for the Money (1968).

Mesmo louco, importante notar que Joy está longe de parecer uma obra completamente desconexa, caótica em excesso. Assim como o material apresentado há poucos meses, em Freedom’s Goblin (2018), último disco de Segall em carreira solo, o presente álbum está repleto de canções deliciosamente acessíveis e capazes de seduzir o ouvinte tradicional. Canções como a psicodélica Good Boy ou mesmo a já citada Body Behavior, perfeita representação do domínio melódico da dupla.

Entretanto, a beleza do disco está justamente nesse contrastado jogo de ideias. Instantes em que Segall e Fence vão da esquizofrenia garageira ao pop melódico dos anos 1960/1970. Não por acaso, BeginningPlease Don’t Leave This Town foram escolhidas como canções de abertura do álbum. Duas metades de um mesmo bloco criativo, como se a dupla apontasse a direção seguida durante toda a execução do trabalho, dualidade que acompanha o ouvinte até a derradeira My Friend.

Concebido em um intervalo de poucos dias, Joy, mais uma vez, confirma a completa versatilidade de Segall, além, claro, do parceiro de banda dentro de estúdio. É como se do material apresentado há poucos meses, o músico californiano fosse além. Composições claramente ancoradas em clássicos do rock inglês e norte-americano, porém, sutilmente guiadas pela estranheza de sues atos, preferência que faz do presente álbum uma obra talvez maior do que o material apresentado em Hair.