"Ken"

Ano: 2017
Selo: Merge
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Broken Social Scene e Bon Iver
Ouça: Tinseltown Swimming in Blood e Sky's Gray
Nota: 8.5

Resenha: “Ken”, Destroyer

No início de 2016, poucos meses após o lançamento de Poison Season (2015) – trabalho que dialoga com os grandes musicais da Broadway, elementos do jazz clássico e até mesmo com obra da brasileira Clarice Lispector –, Dan Bejar presenteou o público com a inédita My Mistery. Deixada de fora da versão final do 10º álbum de inéditas do Destroyer, a canção pode até parecer deslocada quando próxima de faixas como Dream Lover e Times Square, entretanto, conversa de maneira explícita com as composições do recém-lançado Ken (2017, Marge), servindo criativamente como um precioso rito de passagem.

Interessado em desvendar a obra do grupo britânico Suede, Bejar descobriu recentemente que The Wild Ones, uma das principais composições do álbum Dog Man Star (1994), deveria se chamar “ken“. Pensando nisso, o músico canadense decidiu revisitar diversos aspectos do trabalho entregue há mais de duas décadas, relação evidente na atmosfera sutil, versos entristecidos e arranjos cuidadosamente elaborados que banham parte expressiva do trabalho, lembrando em alguns aspectos a principal obra do Destroyer nos últimos anos, o elogiado Kaputt (2011).

Em uma medida própria de tempo, sem pressa, Bejar e os parceiros de banda, entre eles, o baterista Josh Wells, produtor do álbum e um dos integrantes do Black Moutain, atravessam o registro recriando quase quatro décadas de referências de forma particular. Uma propositada viagem musical em direção ao passado, porém, ainda presa ao presente, percepção reforçada na densa In The Morning, composição que joga com a efemeridade da vida (“Ei você, venha aqui / Bandas cantam suas músicas e depois desaparecem“), enquanto melodias soturnas flertam com a obra do The Cure.

De fato, durante toda a execução do trabalho, Robert Smith, Morrissey e demais representantes da cena inglesa dos anos 1980 ecoam com naturalidade no interior do registro. O próprio Bejar confessou em uma série de entrevistas recentes que os últimos anos do governo Margaret Thatcher (1979 – 1990) foram fundamentais para o amadurecimento da obra, buscando referência em grande parte dos trabalhos lançados durante o período. Basta voltar os ouvidos para o synth-rock melancólico de Ivory Coast ou mesmo os temas semi-eletrônicos e o saxofone caricato de Rome para perceber a forte relação do artista com o passado.

Curioso notar que mesmo jogando com as possibilidades, Bejar em nenhum momento se distancia de faixas claramente acessíveis, fazendo do habitual Soft Rock que acompanha a banda desde o ótimo Your Blues (2004), o principal estímulo para o registro. São composições como a acolhedora e acústica Saw You at the Hospital, o rock empoeirado e jazzístico de Tinseltown Swimming in Blood, uma das melhores composições da banda em anos. Mesmo a derradeira La Regle du Jeu parece pensada para fisgar o ouvinte logo em uma primeira audição, lembrando em diversos aspectos a obra de Serge Gainsbourg.

Aventureiro, Ken vai do rock cru de Cover From The Sun ao minimalismo orquestral de Sky’s Gray sem necessariamente fazer disso o princípio para uma obra confusa. Em atuação desde a segunda metade dos anos 1990, Bejar parece pouco interessado em se repetir. A julgar pela seleção de obras que vêm sendo produzidas pelo artista desde o início da presente década, poucas vezes antes Dan Bejar pareceu tão inventivo, relevante. Uma permanente transformação que não apenas justifica o temporário distanciamento do artista do The New Pornographers, banda em que colabora há mais de duas décadas, como confirma permanente transformação e força do Destroyer como um dos projetos mais significativos da cena alternativa.

 

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