"Lamp Lit Prose"

Ano: 2018
Selo: Domino
Gênero: Indie Pop, Art Rock
Para quem gosta de: Vampire Weekend e tUnE-yArDs
Ouça: Break-Thru e I Feel Energy
Nota: 8.0

Resenha: “Lamp Lit Prose”, Dirty Projectors

Talvez marcado pelo time de músicos consolidado durante o lançamento de Bitte Orca (2009), importante ressaltar que, desde o início da carreira, o Dirty Projectors sempre foi encarado por David Longstreth como um coletivo de essência mutável, guiado pelo constante fluxo de colaboradores. Partindo desse conceito, nomes como Ezra Koenig (Vampire Weekend), Tyondai Braxton (Battles), Olga Bell e, mais recentemente, Angel Deradoorian e Amber Coffman, contribuíram para o crescimento da banda, porém, logo seguiram para trabalhar em seus próprios projetos.

Oitavo álbum de inéditas na carreira do grupo nova-iorquino, Lamp Lit Prose (2018, Domino) talvez seja a melhor representação dessa permanente troca de referências e ideias compartilhadas entre diferentes compositores. Misto de regresso ao som que vem sendo explorado pela banda desde Rise Above (2007), além, claro, de resposta ao parcial isolamento de Longstreth no último trabalho de inéditas do grupo, cada fragmento do presente disco se abre para criativa interferência de colaboradores próximos ao Dirty Projectors.

Como indicado em durante o lançamento de Break-Thru, Lamp Lit Prose é um trabalho guiado em essência pelas emoções de Longstreth. Trata-se de um registro centrada na redescoberta do amor, contraponto à poesia triste que orienta grande parte do material apresentado no disco anterior. “Eu não sei como vou ser um homem melhor / Eu não sei como vou alcançar a Terra Prometida / Eu não sei como vou fazer você pegar minha mão / Mas eu vou tentar e eu sei quando“, canta logo na inaugural Right Now, colaboração com a jovem Syd (The Internet) e um delicado indicativo do som explorado no restante da obra.

Enquanto os versos brindam a chegada de um novo amor, refletindo o completo esmero de Longstreth, musicalmente, Lamp Lit Prose transporta o som produzido pelo Dirty Projectors para um novo território. Ainda que a base do disco seja a mesma dos antecessores Bitte Orca e Swing Lo Magellan (2012), variações instrumentais e rítmicas jogam com a experiência do ouvinte. É o caso da acústica You’re the One, parceria com Robin Pecknold (Fleet Foxes) e Rostam Batmanglij que transporta o público para o início dos anos 1970, lembrando nomes como Paul Simon e Cat Stevens.

Nada que se compare ao colorido instrumental (e poético) que marca a quente I Feel Energy, quarta faixa do disco. Concebida em parceria com a cantora Amber Mark, a canção não apenas sintetiza a capacidade de Longstreth em costurar diferentes ritmos de forma criativa — funk, música africana, eletrônica e pop de câmara —, como reflete a completa entrega do artista. De fato, poucas vezes antes o músico nova-iorquino pareceu intenso, dançando em um território que parece nascido do encontro entre o Michael Jackson do clássico Of The Wall (1979) com o Talking Heads no início da década de 1980.

Acessível quando próximo de outros trabalhos produzidos pela banda, Lamp Lit Prose mostra a capacidade de Longstreth em utilizar de uma linguagem pop para mergulhar em temas e referências essencialmente pessoais. Parte desse novo posicionamento vem da clara interferência do vasto time de colaboradores que acompanham o artista durante toda a execução da obra — entre eles, Empress Of, em Zombie Conqueror, e Dear Nora, na delicada (I Wanna) Feel It All. Um permanente desvendar da própria identidade musical da banda, como se o Dirty Projectors fosse capaz de surpreender mesmo em um universo que há muito parece ter sido desvendado.