"Lição #2: Dorival"

Ano: 2018
Selo: Risco
Gênero: Experimental, Jazz, Pós-Rock
Para quem gosta de: Constantina e Metá Metá
Ouça: Sargaço Mar / Preta do Acarajé e Morena do Mar
Nota: 8.0

Resenha: “Lição #2: Dorival”, Quartabê

Dorival Caymmi (1914 – 2008) talvez seja um dos personagens mais significativos e, consequentemente, regravados da nossa música. De veteranos como Gal Costa, que em 1976 lançou o ótimo Gal Canta Caymmi, apenas com versões para o trabalho do músico de Salvador, passando por obras recentes, caso do primeiro álbum de Alice Caymmi, neta do cantor e compositor baiano, sobram registros, canções e experimentos pontuais que adaptam de forma inteligente o trabalho do artista nascido no início do século passado. Um sem número de obras que encontram no oceano poético de Caymmi uma fonte inesgotável de inspiração.

Exemplo disso está na composição atmosférica que rege o delicado Lição #2: Dorival (2018, Risco). Segundo e mais recente álbum de estúdio do grupo paulistano Quartabê, projeto composto por Joana Queiroz (saxofone tenor, clarinete e clarone), Maria Beraldo (clarinete e clarone), Mariá Portugal (bateria) e Rafael Montorfano (piano e teclados), o trabalho de nove faixas busca refúgio na obra do músico baiano, porém, dentro de uma linguagem torta, semi-jazzística e guiada pela doce experimentação. Pinceladas instrumentais e poéticas que transportam o universo de Caymmi para um novo ambiente criativo.

Concebido em pequenas doses, cada fragmento do registro funciona como peça fundamental para o imenso quebra-cabeça que revela sua forma completa apenas na derradeira Maré Baixa. Do momento em que tem início, em Onda #1, melodias atmosféricas, batidas e teclados pontuais se espalham de forma a hipnotizar o ouvinte, convidado a se perder em um território de pequenas incertezas. Costuras harmônicas que se entrelaçam sem pressa, sempre vagarosas, como se cada composição do disco fosse trabalhada em uma medida própria de tempo, proposta que se reflete mesmo no uso da voz, elemento tratado como instrumento ao longo do disco.

Homogêneo quando próximo do registro que o antecede, Lição #1: Moacir (2015), projeto em que o grupo paulistano decidiu revistar a obra do compositor e maestro pernambucano Moacir Santos (1926 – 2006), o presente álbum exige tempo até que seja completamente absorvido pelo público. E não poderia ser diferente. Perceba como cada composição do disco se espalha em meio a pequenos detalhes, condensando variações melódicas que mostram o cuidado do quarteto dentro de estúdio. São paisagens instrumentais que se revelam aos poucos, sempre precisas, cercando o ouvinte.

Exemplo disso está em Morena do Mar, segunda faixa do disco. Originalmente lançada como parte do álbum Caymmi, de 1972, trabalho que contou com a breve interferência do escritor baiano Jorge Amado, a canção agora assume novo e delicado enquadramento nas mãos do quarteto paulistano. Concebida em meio a sintetizadores cósmicos, a faixa pouco a pouco se abre para a inserção de novos elementos. São batidas pontuais, saxofones e clarinetes que “duelam” de forma sensível, cuidado que se reflete em Sargaço Mar / Preta do Acarajé e Canto de Nanã, essa última, com quase oito minutos de duração.

Fuga do óbvio em relação a outros tantos projetos que buscam revisitar a extensa obra de Caymmi, Lição #2 preserva a essência do musico baiano, porém, dentro de uma estrutura própria do grupo paulistano. Composições que mesmo esquivas de versos fortes, navegam pelas mesmas histórias, personagens e cenários litorâneos retratados nas canções do artista que teve seu centenário celebrado há quatro anos. Um exercício imaginativo e mágico, como se das lições aprendidas com Moacir Santos, o grupo paulistano fosse capaz de ir além.

 


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