"Love What Survives"

Ano: 2017
Selo: Warp
Gênero: Experimental, Eletrônica, Pós-Punk
Para quem gosta de: King Krule e James Blake
Ouça: Blue Train Lines e We Go Home Together
Nota: 8.3

Resenha: “Love What Survives”, Mount Kimbie

Em um curioso processo de desconstrução, Kai Campos e o parceiro Dominic Maker lentamente ultrapassaram os limites da música eletrônica/pós-dubstep para provar de novas sonoridades e experiências dentro de estúdio. Experimentos que tiveram início na ambientação urbana de Crooks & Lovers (2010), cresceram no som torto de Cold Spring Fault Less Youth (2013), mas que acabaram alcançando melhor resultado nas canções do terceiro álbum de inéditas do Mount Kimbie, o recém-lançado Love What Survives (2017, Warp).

Trabalho mais inovador da dupla britânica, o novo álbum não apenas distancia Campos e Maker de um típico registro de música eletrônica, como transforma o Mount Kimbie em uma espécie de banda completa. As programações eletrônicas, loops, samples e sintetizadores ainda estão espalhados por toda a obra, porém, cobertos por uma fina tapeçaria instrumental. São guitarras sujas, uma bateria sempre presente e outros elementos “orgânicos”, tratamento evidente na sequência formada por Four Years and One Day e Blue Train Lines, encontro enérgico com o conterrâneo inglês King Krule, parceiro desde o álbum anterior.

Claramente inspirado pelo trabalho produzido por veteranos da cena britânica, principalmente os primeiros discos do New Order e toda a sequência de obras assinadas pelo The Fall no início dos anos 1980, o terceiro álbum do Mount Kimbie encontra em elementos do pós-punk um tempero adicional ao som produzido pela dupla. Difícil não se perder na atmosfera cinza de músicas como Audition, composição que parece dialogar de forma curiosa com o som produzido há mais de três décadas em clássicos como Power, Corruption & Lies (1983).

Importante reforçar que mesmo a forte mudança não impede a dupla britânica de explorar uma série de elementos típicos dos dois primeiros discos. Um bom exemplo disso está na climática SP12 Beat, música que serve de passagem para o material apresentado em Cold Spring Fault Less Youth. Produzida em parceria com James Blake, colaborador de longa data da dupla, We Go Home Together resgata de forma particular uma série de elementos do R&B/Pós-Dubstep que caracteriza o primeiro álbum da dupla, se espalhando como um dos momentos mais emocionantes e delicados do trabalho.

Além dos já citados Blake e Krule, Love What Survives ainda se abre para a colaboração com outras duas artistas. Em Marilyn, quarta faixa do disco, um curioso encontro com a cantora/produtora Mica Levi (Micachu), responsável por um dos registros mais acolhedores do álbum. Lembrando a boa fase do Stereolab nos anos 1990, You Look Certain (I’m Not So Sure) mostra o encontro do Mount Kimbie com a francesa Andrea Balency. Mesmo Blake volta para mais uma parceria com o duo inglês, detalhando sentimentos na confessional How We Got By, faixa de encerramento do trabalho.

Entregue ao público em pequenas doses no decorrer dos últimos meses — parte expressiva das faixas assinadas em colaboração com outros artistas já haviam sido apresentadas —, Love What Survives marca o princípio de uma nova fase dentro da carreira do Mount Kimbie. Não se trata apenas de uma transformação detalhada na rica base instrumental do trabalho, mas, principalmente, na precisa interferência dos versos, efeito direto do forte romantismo e poesia cuidadosa que acompanha o ouvinte até o último verso da melancólica How We Got By.

 

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