"Ma"

Ano: 2018
Selo: Sinewave
Gênero: Rock, Rock Instrumental, Pós-Metal
Para quem gosta de: Elma, Macaco Bong e Herod
Ouça: Inverno Inverso e Fogo Nosso
Nota: 8.5

Resenha: “Ma”, Huey

Um instante de breve silenciamento que precede o esporro. Em Ma (2018, Sinewave), segundo álbum de estúdio do quinteto paulistano Huey, todos os elementos do disco se revelam ao público em pequenas doses. São camada de fina distorção, paisagens instrumentais e ruídos ensurdecedores que se dobram de forma a completar toda e qualquer lacuna do registro. Um exercício minucioso, complexo, efeito da completa interferência e combinação de cada integrante da banda – hoje completa pelos músicos Rato (bateria), Dane El (guitarra), Vina (guitarra), Minoru (guitarra) e Vellozo (baixo).

Menos urgente em relação ao material apresentado há quatro anos em ACE (2014), álbum de estreia do grupo, Ma é um trabalho que encanta justamente pela forma como os membros da Huey parecem seguir em uma medida própria de tempo, sem pressa. Do momento em que tem início, em Inverno Inverso, até alcançar a derradeira O+, com quase nove minutos de duração, perceba como cada composição do disco parece recortada de forma cirúrgica pela banda, alternando entre instantes de fúria e parcial recolhimento.

Parte dessa estrutura se relaciona diretamente com o título do trabalho. “‘Ma’ é uma palavra de origem japonesa que representa o conceito artístico para compreendermos ausências, espaços e vazios do nosso mundo. Não se trata apenas da pausa musical, mas também do silêncio que temos entre as notas, do ‘vazio’ entre duas colunas na arquitetura, aquilo que não foi pintado/desenhado em um quadro“, resume o texto de apresentação do trabalho. Não por acaso, Pei, terceira faixa do disco, foi justamente a canção escolhida para apresentar o novo álbum.

Em um intervalo de quase seis minutos, a composição se espalha em meio a atos espaçados, guitarras e batidas pulsantes, além, claro, de pequenas quebras instrumentais que transportam banda e público para diferentes territórios conceituais. Uma permanente ruptura criativa que reflete de forma curiosa algumas das principais referências para o trabalho da Huey. Instantes em que o quinteto paulistano vai da estrutura ritmada de veteranos como Black Sabbath e Metallica ao tom psicodélico do Queens of the Stone Age, bagunçando a experiência do ouvinte mesmo nos instantes de maior recolhimento da obra, como na semi-acústica Mother’s Player, um respiro breve em relação ao restante do álbum.

Não por acaso, os integrantes da banda decidiram trabalhar em parceria com o veterano Steve Evetts, produtor que já colaborou com diferentes nomes da cena alternativa, caso de Sepultura, The Cure e Torch. O resultado desse encontro está na produção de um registro essencialmente versátil, conceito explícito nos instantes de forte aceleração e parcial recolhimento que tomam conta de Mar Estar, nas camadas instrumentais de Fogo Nosso, ou mesmo na breve passagem pelo rock dos anos 1990, base para a crescente Wine Again. Pouco mais de 40 minutos em que o quinteto se mantém curioso, testando os próprios limites dentro de estúdio.

Ora econômico e sensível, ora turbulento e raivoso, Ma parece arremessar o ouvinte para diferentes campos instrumentais, porém, sempre preservando a homogeneidade que tanto caracteriza o trabalho do grupo paulistano. São fragmentos instrumentais que assentam sem pressa em um espaço entregue à completa ruptura e livre interpretação. Um misto de sequência, quebra e profunda transformação quando voltamos os ouvidos para o material apresentado pelo quinteto em ACE.

 


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