"Manaus Vidaloka"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo, Afrobeat
Para quem gosta de: Carne Doce, Ara Macao e Boogarins
Ouça: Lucifer, Manaus e Center of Universe
Nota: 8.6

Resenha: “Manaus Vidaloka”, Cambriana

Em um universo de artistas ainda embrionários, porém, hoje cultuados, como Carne Doce e Boogarins, House of Tolerance (2012), álbum de estreia do grupo Cambriana, talvez seja um dos primeiros exemplares da cena goiana a atrair maior atenção do público para além do núcleo sertanejo que parecia movimentar música local. Entre versos cantados em inglês e melodias crescentes que pareciam dialogar com o trabalho de estrangeiros como Grizzly Bear e Arcade Fire, cada composição do elogiado debute parecia servir de passagem para um novo ambiente criativo, conceito posteriormente reforçado durante o lançamento do EP Worker (2013), registro de seis faixas entregue meses mais tarde.

Entretanto, importante notar que mesmo a boa repercussão em torno do álbum não impediu que a banda mergulhasse em um longo período de hiato. Com os membros espalhados em diferentes projetos — como o paralelo Ara Macao, do vocalista e líder Luís Calil —, restou ao público esperar pacientemente por um possível regresso do grupo de Goiás. Uma espera angustiada que se estendeu por mais de cinco anos, até a recente entrega de Center of Universe, primeiro fragmento do novo álbum de inéditas do coletivo goiano, o experimental Manaus Vidaloka (2018, Independente).

Misto de continuação e lenta desconstrução do material entregue ao público há seis anos, o trabalho concebido sem pressa, a partir de gravações de Calil (voz, guitarra, violão, sintetizador, percussão, programação, vuvuzela) entre Goiânia e Manaus, mostra o esforço do grupo em se reinventar dentro de estúdio. Canções que se entregam à mistura de ritmos africanos, guitarras carregadas de efeitos e interferências tribais, reflexo da forte agitação criativa gerada em parceria com os músicos Wassily Brasil (sintetizador, piano, guitarra, voz), Heloísa Cassimiro (bateria), Pedro Falcão (baixo, saxofone, guitarra, violão, percussão, flauta doce, kalimba, voz), Rafael Morihis (guitarra, voz) e Israel Santiago (guitarra, voz).

Exemplo disso está na caótica Manaus. São pouco mais de sete minutos em que o ouvinte é convidado a se perder em um território de pequenas incertezas, indo do samba ao art rock em uma linguagem própria da banda. “O messias vai / Pendure-o agora / Dê seu sangue para as vacas / Receba o messias demitido / Esmague seus ossos / E alimente o chão“, provoca a letra da canção, em inglês, enquanto a colagens tribais, blocos de ruídos e vozes em coro crescem desmedidas, sempre catárticas. Um som turbulento, torto, conceito reforçado desde a inaugural Big Sensations, faixa de abertura do disco e um claro ponto de separação entre o material entregue em House of Tolerance e no presente disco.

Consumido pelos detalhes, Manaus VidaLoka, assim como o trabalho que o antecede, exige tempo até ser absorvido pelo ouvinte. São incontáveis camadas instrumentais, sobreposições e arranjos referenciais, marca de músicas como Björk e You, The Living. Em Half Moon Over Guadalupe, Here it ComesManaus, um coro de vozes femininas lançadas pelas convidadas Salma Jô, Bruna Mendez e Polyanna Pimpão, além, claro, da poesia lasciva e sutilmente maquiada de Lucifer, música em que Calil canta sobre o sexo oral e os prazeres da vida mundana sempre condenados pelas instituições religiosas. Mesmo composições “menores”, como a curtinha Big Surf, se espalha de forma a revelar um conjunto de pequenas variações rítmicas, colidindo guitarras e captações aquáticas de forma hipnótica.

Dentro desse turbilhão criativo, Manaus Vidaloka cresce como uma obra aventureira, capaz de corromper o passado da banda, porém, preservando a essência detalhista que há tempos orienta as canções do Cambriana. Trata-se de uma obra guiada pelo senso de desafio, como se Calil e os parceiros de banda brincassem com a completa imprevisibilidade dos atos, mudando de direção a todo instante. Um inevitável convite a se perder no mesmo território tropical e culturalmente diverso que dá título ao disco.

 


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