"Mansa Fúria"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: MPB, Alternativa
Para quem gosta de: Iara Rennó e Xênia França
Ouça: Mansa Fúria, Nanã e Rota de Colisão
Nota: 8.1

Resenha: “Mansa Fúria”, Josyara

A dualidade explícita no título de Mansa Fúria (2018, Pomelo) diz muito sobre a direção e pequenas variações rítmicas assumidas no segundo e mais recente álbum de estúdio da baiana Josyara Lélis. Produto das emoções e sentimentos detalhados pela cantora e compositora original de Juazeiro, o sucessor do curioso Uni Versos, lançado em 2012, transporta as ambientações acústicas da musicista para um novo território. São melodias ruidosas, semi-psicodélicas e entalhes eletrônicos que se amarram à poesia metafórica que invade os versos.

Com o próprio corpo como um elemento vivo, mesclado à natureza, Josyara se transforma em solo fértil, deságua em um oceano de emoções profundas e possibilita o crescimento de árvores de sentimentos lascivos, sempre centrados em casos recentes de amor. “Feito um cometa você chegou / E me abraçou com todo ardor / Fez a extinção das coisas más / Levou o mar pro meu sertão … Você surgiu e germinou / As frutas doces despencaram / Feito minhas pernas ao te ver“, canta em Rota de Colisão, síntese da poesia detalhista que serve de sustento ao disco, mostrando o avanço e força da cantora em relação ao material entregue há seis anos.

A mesma força das palavras ecoa com naturalidade no romance lésbico de Temperatura. “Calor só presta na beira de mar / Se tu me rasa porque não entra no fundo? / Cuidado com pulo você pode se embrenhar / No balanço d’agua Temperatura subiu / Tem pé de quê?“, provoca enquanto vozes carregadas de efeitos se espalham em meio a melodias acústicas, como se Josyara delicadamente convidasse o ouvinte a se perder em um território desvendado apenas por ela.

Mesmo nos instantes em que desacelera, como na inaugural Apreciação (“Quando você for ver o mar / Seus olhos mergulhar na casa de Yemanjá / A Bahia de todos os santos vão abençoar / E verá seu interior festejar / A lembrança de ser livre“), ou na doce Nanã (“Tenha coragem / Cresça / Procure um abrigo / Quando a tristeza canta / Desobedeça a dor“), parceria com a paraense Luê, há sempre beleza e imensidão nos versos e estruturas não convencionais testadas por Lélis dentro de estúdio. Composições que pervertem a MPB tradicional, reforçando a grandeza e completa entrega da artista.

Exemplo disso está na própria faixa-título do disco, composição que utiliza de elementos da música regional como passagem para um ato de pura experimentação e lenta ruptura dos arranjos e vozes. Instantes em que Josyara parece brincar com a própria identidade artística, revelando desde faixas essencialmente caóticas, como Você Que Perguntou, até composições pensadas para cercar e confortar o ouvinte, sem pressa, preferência reforçada na atmosférica Cochilo.

Parte dessa transformação criativa e busca declarada por novas possibilidades vem da escolha da artista em trabalhar ao lado do produtor Junix 11 (Bayana System), além, claro, dos músicos May Hd, Marcos Santos, Uru Pereira e Rodrigo Sestrem, responsáveis por ampliar a rica base delirante que escapa do violão de Josyara. Um colorido labirinto de ideias e experiências sensoriais que fazem do disco uma extensão natural das memórias, sentimentos e herança musical/pessoal que vem sendo apresentada pela cantora desde o primeiro álbum de estúdio.

 


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