"Marauder"

Ano: 2018
Selo: Matador
Gênero: Indie Rock, Pós-Punk
Para quem gosta de: The National e Yeah Yeah Yeahs
Ouça: If You Really Love Nothing e Flight of Fancy
Nota: 7.2

Resenha: “Marauder”, Interpol

Você pode não gostar dos rumos assumidos por Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino nos últimos trabalhos de estúdio do Interpol, entretanto, ignorar qualquer novo álbum de inéditas produzido pelo grupo nova-iorquino seria no mínimo um erro. Mesmo obras menores, como o homônimo disco de 2010, ou o mediano El Pintor (2014), lançado há quatro anos, revelam ao público composições tão interessantes e intensas quanto o material entregue ao público nos ótimos (se não clássicos) Turn on the Bright Lights (2002) e Antics (2004).

Sexto álbum de inéditas na carreira do trio norte-americano, Marauder (2018, Matador) talvez seja o trabalho em que Banks e seus parceiros de banda melhor administram todos os limites da obra. Livre de possíveis excessos e faixas descartáveis, um dos principais problemas nos últimos discos do trio, cada composição do presente álbum assume uma função específica dentro da estranha narrativa que move o personagem fictício anunciado logo no título da obra. Não se trata de um registro conceitual, mas um fino direcionamento para o material que orienta a experiência do ouvinte.

Inaugurado em meio a guitarras rápidas e batidas bem direcionadas de If You Really Love Nothing, Marauder resume na poesia amarga de Banks parte do conceito pessimista que sustenta o trabalho. “Se você realmente ama nada / Todo mundo é inventado / Todo mundo está perdendo / Se você realmente ama nada / Vamos dormir em glória silenciosa?“, questiona de forma angustiada, mergulhando em versos autobiográficos, parte deles guiados pelo personagem que batiza o trabalho.

“Este disco é onde eu sinto que consigo tocar em coisas reais que aconteceram comigo. É excitante e evocativo escrever sobre isso. Acho que, no passado, eu sempre senti que a autobiografia era uma coisa muito pequena para eu me apoiar. Sinto que agora posso romantizar partes da minha vida“, respondeu o vocalista durante a coletiva de lançamento do disco, em um evento no México. De fato, poucas vezes antes o músico nova-iorquino pareceu tão vulnerável, sufocando em meio a versos consumidos por um romantismo triste, íntimo de todo e qualquer ouvinte.

Exemplo disso está nas memórias de Stay In Touch, composição guiada pelo lirismo dos versos (“Então ele se tornou meu amigo próximo / Nós falamos de seu amor por você muitas vezes / Eu vim te ver na luz das estrelas / E deixe que os campos elétricos cedam à pele“), e força dos arranjos, resultando em um diálogo inteligente com o pós-punk sombrio que há tempos orienta o trabalho do Interpol. Canções ancoradas em um passado ainda recente, como em The Rover e Flight of Fancy, frações da poesia dolorosa de Banks, sempre guiado pela força das guitarras que se espalham até o último instante do disco.

Intenso quando exige ser, sereno em momentos estratégicos, como uma ponte para os instantes de maior fúria/entrega do registro, Marauder mostra um trio equilibrado e coeso. Um esforço coletivo que se reflete na completa entrega de Banks na composição dos versos, passa pela ambientação soturna que invade a base de cada canção e segue até a produção do veterano Dave Fridmann (The Flaming Lips, MGMT), responsável por amarrar todas as pontas soltas do grupo dentro de estúdio.

 


2 thoughts on “Resenha: “Marauder”, Interpol

Comments are closed.