"Meio Que Tudo É Um"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Rock Alternativo, Experimental
Para quem gosta de: Ian Ramil e Cícero
Ouça: Pelos Olhos do Mundo e O Creme e o Crime
Nota: 8.5

Resenha: “Meio Que Tudo É Um”, Apanhador Só

O que você esperava de um novo álbum da Apanhador Só? Um regresso óbvio ao mesmo pop-rock-melódico que marca o primeiro registro de inéditas da banda ou a continuação do experimentalismo torto que orienta grande parte das composições no elogiado Antes Que Tu Conte Outra (2013), segundo álbum de inéditas do (hoje) trio gaúcho? A resposta chega de maneira inesperada e naturalmente curiosa com a produção do instável Meio Que Tudo É Um (2017, Independente), terceiro e mais recente trabalho de estúdio grupo original de Porto Alegre.

Produto da completa fragmentação de ideias e recortes instrumentais que flutuam pelo interior do disco, o registro de 15 faixas e pouco mais de 40 minutos de duração parece crescer para além dos limites da própria obra. Entre captações caseiras (Sol da Dúvida), diálogos com o samba (Metropolitano) e instantes de pura leveza (Linda, Louca e Livre), Alexandre Kumpinski (voz, violão e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra, bateria, sampler e percussão) e Fernão (baixo, teclados, lira e percussão) testam os próprios limites, criando passagens para o reforço de Diego Poloni (guitarra e teclados) e Bruno Neves (bateria e percussão).

Para mim, Antes que Tu Conte Outra é mais indigesto do que este. É mais agressivo e ruidoso, provocativo no sentido de ser difícil de ouvir. Meio Que Tudo É Um é mais positivo, brincalhão, criativo. Mesmo que haja momentos bem difíceis, principalmente no início, depois dá uma arrefecida“, explicou Kumpinski em entrevista ao jornalista Fábio Prikladnicki, do jornal Zero Hora. De fato, passada a estranheza inicial que marca o primeiro bloco do trabalho, efeito da composição ruidosa que ocupa a dobradinha Sol da Dúvida e Sopro, o novo disco sustenta em passagens rápidas e atos de pura delicadeza um forte diálogo com o ouvinte – seja ele antigo ou recente.

São músicas como a despretensiosa Bastas, o folk bilíngue de Paso Hacia Atrás, parceria com Perotá Chingó, ou mesmo a colorida Pelos Olhos do Mundo, canção que carrega nos versos o título do álbum. Fragmentos da poesia versátil de Kumpinski, do primeiro ao último instante cercado por um time de colaboradores como Henrique Schaefer, Lola Membrillo Léo e Lúcia Tietboehl. Um mundo de histórias que passa pela infância do vocalista, vide a dicotômica O creme e o crime (“Tirando Yakult de pedra / Vendo Sessão da Tarde brigando com a irmã“), sem necessariamente romper com o presente, base da caótica Teia (“Problema é quando a gente tá puxando duma corda / Do mesmo jeito de quem tá do outro lado / Puxando da mesma corda“).

A mesma riqueza dos versos se revela na forma como o grupo parece brincar com a composição dos arranjos e toda a estrutura musical que sustenta o trabalho. Trata-se de uma clara evolução da atmosfera caseira que marca o artesanal Acústico Sucateiro, de 2011. Ambientações contidas e elementos percussivos que crescem em meio a captações ruidosas, instrumentos pouco convencionais, sintetizadores, samples e encaixes sempre detalhistas. Uma imensa colcha de retalhos instrumentais que vai da ambientação nostálgica de O creme e o crime, passa pelo cricrilar de Isabel Chove e cresce na estrutura urbana de Conforto, música que encontra nas batidas do coração uma passagem para o samba de Metropolitano.

Imenso turbilhão criativo, Meio Que Tudo É Um parece jogar com a incerteza dos arranjos e versos durante toda a construção do trabalho. Dissecadas estruturas poéticas que flutuam em meio a ambientações tortas, como uma extensão caótica da postura experimental adotada pela banda no antecessor Antes Que Tu Conte Outra. Um misto de delírio, resgate e desconstrução de tudo aquilo que vem sendo produzido pelo grupo desde o primeiro álbum de estúdio, tornando impossível prever o rumo da obra a cada nova composição.

 

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