"Melodrama"

Ano: 2017
Selo: Lava / Republic
Gênero: Pop, Art Pop
Para quem gosta de: Bleachers, Charli XCX e Sky Ferreira
Ouça: Liability, Green Lights e Perfect Places
Nota: 9.2

Resenha: “Melodrama”, Lorde

A produção anêmica de Jack Antonoff, por vezes minimalista e contida em excesso, reforça o que há de mais significativo nas composições de Melodrama (2017, Lava / Republic): a poesia de Lorde. Produzido em um intervalo de quase dois anos, uma raridade quando observamos a pressa na formação de outros registros de mesmo gênero, o sucessor do elogiado Pure Heroine (2013) confirma a maturidade e contínua transformação da cantora e compositora neo-zelandesa. Uma clara evolução que se revela em cada fragmento de voz, batida ou arranjo melancólico que costura o trabalho.

É um registro sobre estar sozinho. As partes boas e as partes ruins, lidando com temas como separação e solidão“, resumiu Lorde em entrevista ao The New York Times. De fato, a dor funciona como uma clara espinha dorsal para o sustento do trabalho. Do momento em que tem início, em Green Light (“Pensei que você sempre estivesse apaixonado / Mas você não está mais apaixonado“), dançante faixa de abertura do disco, até o último sussurro da hedonista Perfect Places (“Toda noite, vivo e morro“), Melodrama mergulha no que há de mais sufocante, tedioso e entristecido no cotidiano da artista.

Em uma espiral de sentimentos e versos confessionais, por vezes mórbidos, Lorde reflete sobre noites de excessos, abusos com drogas, sexo e personagens que falseiam sorrisos e conquistas momentâneas em um ambiente dominado pela luz estroboscópica. “Vamos acabar pintados na estrada / Vermelho e cromo / Todo o vidro quebrado e espumante / Acho que estamos em festa“, canta na intensa Homemade Dynamite, um passeio alcoolizado pela estrada depois de uma noite de diversão. Personagens vazios, claramente desinteressados, porém, ainda em busca de respostas e novos relacionamentos.

Centrado na visão de Lorde sobre o universo que a cerca, Melodrama encanta e cresce quando explora o que há de mais profundo e doloroso na vida da cantora. Um bom exemplo disso está na delicada Liability, a principal composição do disco. “Eles dizem: ‘Você é demais para mim, você é uma responsabilidade … Então eles se afastam, fazem outros planos / Eu entendo, sou uma responsabilidade“, canta em uma clara reflexão sobre o preço da fama e o isolamento sentimental. Um ato sensível, resultado de uma noite angustiada som de Higher, de Rihanna, como explicou ao Genius.

Próximo e ao mesmo tempo distante da atmosfera explorada em Pure Heroine, o segundo álbum de Lorde se entrega ao experimento. São ruídos eletrônicos em Hard Feelings/Loveless, ou mesmo ambientações estranhamente dançantes, marca de Homemade Dynamite, composição que dialoga com em uma série de elementos típicos da obra de Jai Paul. Arranjos, batidas e inserções cirúrgicas que potencializam a voz e sentimentos expostos pela cantora. Uma espécie de arte final do esboço criativo apresentado por Antonoff no segundo álbum como Bleachers, Gone Now (2017), entregue há poucas semanas.

Ambientado no período em que Lorde mudou-se para a cidade de Nova York, porém, composto inteiramente na Nova Zelândia, Melodrama nasce como uma obra particular, intima dos tormentos e inquietações da artista, hoje com 20 anos. Um cuidado que se reflete no fino isolamento retratado na arte de capa do disco, trabalho assinado pelo artista plástico Sam McKinniss, mas que cresce em cada fragmento de voz presente no interior do registro. Versos e melodias entristecidas que pintam um retrato atual​, cru e honesto dos principais sonhos e desilusões que orientam a vida de qualquer jovem adulto.

 

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