"Memoro Fantomo_Rio Preto"

Ano: 2016
Selo: Independente
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Constantina, Tim Hecker
Ouça: Célula_1 e Dezembro
Nota: 8.3

Resenha: “Memoro Fantomo_Rio Preto”, Sentidor

Os cenários esverdeados e aconchegantes do interior do Brasil pouco a pouco são montados na cabeça do ouvinte durante a audição de Memoro Fantomo_Rio Preto (2016, Independente). Mais recente trabalho de inéditas do mineiro João Carvalho como Sentidor, o registro de treze faixas não apenas revela o uso atento de texturas e ambientações eletrônicas típicas de grandes nomes da cena estrangeira, como reflete com naturalidade sensação de mudança a cada novo fragmento instrumental, fazendo do registro uma obra viva.

Como indicado no próprio título do trabalho, o sucessor do também delicado Dilúvio, de 2015, se divide de forma explícita em dois atos distintos. Na primeira metade, Memoro Fantomo. São oito composições em que Caravalho parece confortar o ouvinte. Paisagens, cenas e pequenos acontecimentos cotidianos remontados de forma instrumental. Em Célula_1, por exemplo, terceira faixa do disco, é possível visualizar um grupo de crianças brincado em um fim de tarde, proposta que muito se assemelha ao clássico Music Has the Right to Children (1998), da dupla Boards of Canada.

Da abertura do disco, em Os Momentos Plenos Da Minha Vida São Verdes, passando por faixas como Dezembro, Guara Pari, Inverno até alcançar a derradeira Nascer Do Sol, Janeiro, Carvalho parece jogar com as sensações do ouvinte. Um jogo atento de sintetizadores sobrepostos, fragmentos de vozes e pequenos entalhes eletrônicos. Sem pressa, cada composição nasce como um ato isolado, curioso, histórias contadas mesmo na ausência de voz, como se diferentes personagens e cenários fossem apresentados ao público no interior de cada canção.

Em Rio Preto I, nona faixa do disco, a passagem para um novo universo de composições. Enquanto todo o primeiro ato do trabalho parece refletir uma atmosfera acolhedora, pueril e matutina, efeito da profunda leveza de cada fragmento eletrônico, Carvalho faz do segundo bloco de canções uma completa inversão desse resultado. São canções densas, obscuras e amargas, como se a música do artista mineiro dialogasse com a noite, esbarrando vez ou outra na obra de artistas como Oneohtrix Point Never e, principalmente, Tim Hecker, influência confessa do músico.

Um bom exemplo desse resultado ecoa com naturalidade na dobradinha Rio Preto II e Rio Preto III. São vozes ecoadas que surgem de forma quase tenebrosa, sintetizadores sujos e detalhes minimalistas que jogam com a percepção do ouvinte. Enquanto a primeira porção do trabalho joga com as possibilidades e detalhes, com a segunda metade do disco, Carvalho costura todos os elementos de forma a produzir um som homogêneo, claustrofóbico.

Observado dentro da discografia de Sentidor, Memoro Fantomo_Rio Preto parece seguir a trilha do álbum Canções Pra Chamar de Lar, de 2012. Ao fundo de cada composição, um universo de histórias, emoções e até mesmo imagens a serem exploradas pelo ouvinte. Junto as canções produzida para o disco, Carvalho, também fotógrafo, apresenta uma imagem específica, detalhando no texto de apresentação do registro as histórias que inspiram os temas detalhistas de cada faixa.

 

 

Veja também:


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend