"Microshift"

Hookworms

Ano: 2018
Selo: Domino
Gênero: Rock Alternativo, Pop Psicodélico
Para quem gosta de: Thee Oh Sees, Brian Eno e Neu!
Ouça: Negative Space e Opener
Nota: 8.5

Resenha: “Microshift”, Hookworms

Quer entender a força criativa e profunda relevância de Brian Eno para a música atual? Ouça Microshift (2018, Domino). Terceiro álbum de estúdio do Hookworms, o sucessor do maduro The Hum (2014) mostra o propositado afastamento da banda original de Leeds, Inglaterra, do garage-rock-psicodélico testado nos primeiros inventos autorais. Trata-se de um imenso labirinto sensorial e nostálgico, como um olhar curioso para a música, conceitos e experiências que abasteceram o cenário musical nos anos 1970.

Feito para ser ouvido sem cortes ou possíveis interrupções, da primeira à ultima faixa, o registro faz de cada composição um precioso alicerce para a música seguinte. Em uma arquitetura pré-definida, sintetizadores e guitarras climáticas se posicionam de forma complementar e ritmada, guiando a experiência do ouvinte. O resultado está na construção de uma obra crescente e coesa, como se cada fração desempenhasse um papel fundamental para a narrativa poética/instrumental detalhada pela banda.

Perfeita representação do vívido esmero do grupo inglês está na sequência que amarra The Soft Season e Opener. Em um intervalo de 12 minutos, o quinteto britânico não apenas parece testar uma série de ambientações etéreas e temas melódicos, como sutilmente brinca com o uso de pequenas variações rítmicas, camadas e texturas instrumentais, emulando parte do material produzido por Eno, Kraftwerk, Neu! e outros gigantes da música concebida há mais de quatro décadas.

De fato, do momento em que tem início, na crescente Negative Space, até alcançar a derradeira Shortcomings, Microshift funciona como uma confessa homenagem a diferentes clássicos do krautrock, ambient music e pós-punk. Difícil ouvir os temas eletrônicos de Ullswater e não ser prontamente transportado para o mesmo universo de obras como The Man-Machine (1978). Em músicas como Static Resistance e a já citada faixa de abertura, a busca declarada do grupo britânico por um som dançante, como um encontro entre o Brian Eno de Here Come the Warm Jets (1973) e Gang Of Four. A própria imagem de capa do disco parece dialogar com a estética da época.

Interessante notar que mesmo imerso em um ambiente marcado pelo forte diálogo com o passado, Microshift aproveita para atualizar uma série de conceitos há muito desgastados. Exemplo disso está na forma como o quinteto prova da música psicodélica em Each Time We Pass. Marcada pelo minimalismo dos arranjos, batidas e colagens instrumentais, a faixa de quase seis minutos transporta o ouvinte para um universo tomado pela completa leveza, como uma fuga dos pequenos excessos que orientam o restante do trabalho e projetos do gênero. A mesma delicadeza na composição dos arranjos se reflete na mágica Reunion, música que ainda conta com um saxofone climático típico de Vangelis na trilha sonora de Blade Runner (1982).

Pop quando exige ser, como na derradeira Shortcomings, Microshift vai da pura experimentação ao confesso desejo de parecer acessível em um reflexo do completo amadurecimento da banda — hoje completa pelos músicos JN, JW, MB, MJ e SS. São quase cinco décadas de referências dissecadas e trabalhadas de forma a favorecer o som produzido pelo quinteto britânico, como se o universo desbravado durante as gravações de The Hum fosse lentamente ampliado pelos integrantes do Hookworms.

 

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