"Miopia"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Indie, Alternativa, MPB
Para quem gosta de: Juçara Marçal e Rodrigo Campos
Ouça: Para Mujica, Contravento e Mais Um Whiskey
Nota: 8.0

Resenha: “Miopia”, Gui Amabis

Mesmo que de forma involuntária, cada novo álbum produzido por Gui Amabis funciona como a passagem para um universo completamente transformado, sempre particular e torto. Canções que se espalham sem pressa, dentro de uma medida própria de tempo, como se o cantor e compositor paulistano ocultasse segredos e temas intimistas em meio a arranjos sempre diminutos, conceito que vem sendo aprimorado desde a estreia em carreira solo, com o curioso Memórias Luso / Africanas (2011).

Quarto e mais recente álbum de estúdio da carreira de Amabis, Miopia (2018, Independente) traz de volta a mesma atmosfera dos antigos trabalhos do músico, principalmente o antecessor Ruivo em Sangue (2015), porém, dentro de uma linguagem própria. Composições sempre contemplativas, econômicas, mas não menos detalhistas, proposta que orienta a experiência do ouvinte até o último instante do trabalho, na delicada (e efêmera) canção-título.

No ar condicionado troca sua pele / Que só retoma a vida no bafo que anuncia / Hoje é cobra viva já sem o seu veneno … Que sorrir é questão de vontade e chorar faz o mar crescer“, canta logo na inaugural Ar Condicionado. Uma lenta sobreposição de versos intimistas e arranjos abafados, indicativo de toda a estrutura montada por Amabis para o restante do disco. Fragmentos poéticos que se entrelaçam sem pressa, externalizando conflitos internos e pequenas angústias que corrompem qualquer indivíduo. Uma fuga do material entregue há poucos meses no colaborativo Sambas do Absurdo (2017), parceria com Juçara Marçal e Rodrigo Campos.

Exemplo disso está na melancolia brega de Mais Um Whiskey, um embriagado jogo de palavras e melodias entristecidas que reflete os principais tormentos de um mesmo personagem — talvez o próprio Ambis. Instantes de puro recolhimento, mas que acabam servindo de plataforma para o som minucioso concebido em parceria com Dustan Gallas (guitarra), Regis Damasceno (baixo), Richard Ribeiro (vibrafone) e Samuel Fraga (bateria), parceiros do músico durante toda a execução da obra.

Curioso perceber em Para Mujica, faixa em que corrompe esse direcionamento existencialista, o instante de maior beleza do trabalho. Entre versos divididos com Marçal, também parceira em Espírito Acrobático e Todos Os Dias, a canção delicadamente se espalha em meio a pensamentos descrentes, resultando em um precioso debate sobre o atual cenário político e cultural do Brasil — “No direito adquirido, meu querido estamos fritos / Bem na nossa residência não tem pão nem empatia“. Versos sóbrios que antecedem o respiro na colorida Quase Um Vinho Bom, parceria com Tulipa Ruiz e o saxofonista Thiago França (Metá Metá), e que ganha destaque na presença de Rosa Amabis, filha do músico com a cantora Céu.

Entre adaptações de músicas originalmente gravadas por outros artistas, como Contravento, parte do ótimo Caravana Sereia Bloom (2012), de Céu, e O Inimigo Dorme, gravada no último álbum de inéditas do pernambucano Siba, De Baile Solto (2015), Miopia ganha forma aos poucos, ampliando seus limites e preferências. Como tudo aquilo que Amabis vem produzindo desde a estreia em carreira solo, uma obra que parece jogar com regras próprias, talvez contida em uma primeira audição, porém, maior a cada novo movimento orquestrado pelo artista.