"Mundo Moderno"

Ano: 2018
Selo: Abismmo
Gênero: Indie, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Mombojó e China
Ouça: Mais Além e Transmutação
Nota: 8.0

Resenha: “Mundo Moderno”, Paes

Existe uma leveza rara na estrutura que marca os arranjos e versos de Mundo Moderno (2018, Abismmo). Segundo e mais recente álbum de estúdio do cantor e compositor pernambucano Paes, o sucessor do versátil Sem Despedida (2013) encontra na profunda sensibilidade dos temas um precioso elemento de conexão entre as faixas. Instantes em que o músico flutua em meio a poemas existencialistas, delicadas canções de amor e atos de doce melancolia.

Inaugurado pela psicodelia litorânea de Ossos do Ofício, o trabalho de dez faixas e pouco menos de 40 minutos se revela ao público em pequenas doses, sem pressa. “Olho pro mundo e sinto que não sou daqui … Ossos do ofício de gente pensante num mundo moderno / Ir contra um gigante nem tão pensante assim“, canta em tom pessimista enquanto guitarras e batidas lentas se espalham ao fundo da canção, indicando parte da estrutura econômica, porém, detalhista que orienta o registro.

Exemplo disso está na faixa de encerramento do álbum, Camila, música dedicada à namorada, a fotógrafa e poeta Camila van der Linden, com quem colaborou em grande parte do trabalho. Entre versos cantados em inglês, a canção de base acústica delicadamente se espalha em meio a ruídos e vozes ecoadas, como se o pernambucano ampliasse os limites da própria criação. Um lento desvendar de ideias que se reflete em 26 e Ouçam, composições em Paes esbarra na mesma atmosfera dolorosa de nomes como Sufjan Stevens, porém, sempre preservando a própria identidade artística.

Importante notar que mesmo o fino toque amargura e descontentamento com o “mundo moderno” em nenhum momento interfere na produção de faixas radiantes. É o caso de Transmutação, música em que Paes se entrega à mesma eletrônica lisérgica de nomes como Toro Y Moi e Washed Out, revelando batidas e guitarras quentes que convidam o ouvinte a dançar. Um pop delirante, nostálgico, conceito que se reflete também em Praia do Forte, sétima canção do álbum.

Obra de canções, como explicou em entrevista ao Jornal do Comércio, Paes faz de cada fragmento poético um objeto de merecido destaque. Difícil não se deixar conduzir pelos versos de Mais Além (“Que nossas almas queiram sempre mais / Mais de si, mais de nós, mais além“) e, principalmente, a romântica Bicho de Barba (“Sei que estás perto / Tem fome de mim“), composições guiadas por pensamentos e temas particulares, mas que a todo instante parecem dialogar com o ouvinte, reforçando o caráter universal dos sentimentos, medos e realizações detalhadas pelo músico.

Pensado em totalidade, do projeto gráfico assinado por Raul Luna (Mombojó, Vitor Araujo) aos arranjos, batidas e versos compartilhados com a dupla Nascinegro, Mundo Moderno é o típico caso de uma obra que parece crescer a cada nova audição. São pequenos detalhes que se escondem por entre as brechas das canções, sempre sensíveis. Um misto de sequência e lenta desconstrução de tudo aquilo que o músico pernambucano havia testado no álbum anterior.

 


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