Resenha: “My Woman”, Angel Olsen

Categories Melhores Discos, Resenhas

Artista: Angel Olsen
Gênero: Indie, Folk, Alternativo
Acesse: http://angelolsen.com/

 

Versos sufocados de forma explícita pelos sentimentos – “Eu vou me apaixonar por você um dia desses / Eu vou me apaixonar e fugir”; sintetizadores e ambientações eletrônicas, sempre contidas, como um reforço para a delicada construção dos vocais. Com o lançamento de Intern, em junho deste ano, Angel Olsen não apenas conseguiu se distanciar das canções produzidas para o elogiado Burn Your Fire for No Witness, de 2014, como parecia indicar a busca por um novo catálogo de sonoridades, conceitos e temas confessionais.

Em My Woman (2016, Jagjaguwar), terceiro registro em estúdio da cantora, pela primeira vez desde o inaugural Half Way Home, de 2012, Olsen deixa de se apresentar ao público como a figura central do trabalho, interpretando diferentes personagens e histórias entristecidas ao longo da obra. Uma mudança que se faz evidente tanto na sonoridade que rege o disco, costurada por temas eletrônicos e guitarras firmes, como na imagem adotada pela artista para os vídeos de Intern e Shut Up an Kiss Me.

Por falar em Shut Up Kiss Me, nítida é a busca da cantora por um som comercialmente acessível, pop. Entre versos que descrevem o desejo ardente do eu lírico – “Cale a boca, me beije e me amarre com força” –, Olsen detalha uma seleção de guitarras encorpadas por melodias sujas, por vezes íntimas do mesmo som produzido por Liz Phair e PJ Harvey no começo dos anos 1990. Um claro amadurecimento do material apresentado em faixas como Unfucktheworld e Forgiven/Forgotten, do disco anterior.

A mesma estrutura acessível acaba se repetindo em diversos momentos ao longo da obra. Em Never Be Mine, segunda canção do disco, o folk nostálgico de Burn Your Fire for No Witness pouco a pouco converte em uma canção pegajosa, movida pelo uso de versos entristecidos – “Você nunca será meu”. Um completo oposto da temática que chega logo em sequência com a raivosa Give It Up – “Eu desisti de tudo por você” – e Not Gonna Kill You – “Você não vai quebrar / ele só vai mexer com você”.

Intenso durante todo o primeiro ato, My Woman se transforma e parece mudar de direção com a chegada de Heart Shaped Face. Dolorosa do primeiro ao último verso, a canção que explora a temática da separação de forma angustiada acaba servindo de estímulo para o restante da obra. Músicas como a extensa Sister, uma das faixas mais complexas de OIsen, e Those Were The Days, peça encorpada de forma sublime por temas jazzísticos, como um precioso exercício isolado.

Enquanto a influência de Joni Mitchell, Vashti Bunyan e outras veteranas da música folk parecia orientar o trabalho da cantora até Burn Your Fire for No Witness, em My Woman, Olsen expande o próprio domínio criativo, esbarrando com leveza na obra de artistas como Kate Bush (Intern) e, principalmente, Stevie Nicks (Never Be Mine). Melancólico, raivoso e sereno, o álbum reflete com naturalidade a tentativa da cantora em provar de novas sonoridades e temas poéticos, se reinventando de forma atenta durante toda a construção do trabalho.

 

My Woman  (2016, Jagjaguwar)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Sharon Van Etten, Torres e Waxahatchee
Ouça: Intern, Shut Up Kiss Me e Sister

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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