"Não Não-Eu"

Ano: 2017
Selo: PWR Records
Gênero: Eletrônica, Dream Pop
Para quem gosta de: Jonathan Tadeu e Fernando Motta
Ouça: Chão e Eu Quero Fugir
Nota: 7.5

Resenha: “Não Não-Eu”, Não Não-Eu

Formado pelos ex-integrantes da banda mineira Lollipop Chinatown, Não Não-Eu (2017, PWR Records) é, como resume o texto de apresentação da obra, “um ritual de passagem, um processo de reinvenção“. Melodias eletrônicas, ruídos, batidas e vozes tecidas com melancolia que refletem o esforço do trio composto por Pâmilla Vilas Boas (voz, guitarra, synths), Cláudio Valentin (baixo, synts) e Thiago Carvalho (bateria) em provar de novas sonoridades a cada novo fragmento do disco.

Orientado pela formação de uma poesia dolorosa, por vezes mórbida, o trabalho de apenas nove faixas sustenta na densa Chão, composição escolhida como primeiro single do álbum, parte expressiva das experiências intimistas que orientam o restante da obra. “Quero que se perca comigo / Porque a morte me encanta / Quero que esteja comigo / Não permita minha rendição“, canta Vilas Boas em um ato de pura confissão sentimental, estímulo para a completa identificação por parte do ouvinte.

Em Máquina, sexta faixa do disco, um misto de frieza e descrença, resultando em uma amarga reflexão sobre o comportamento mecânico dos indivíduos. “Vivo a vida que vive agitada / Vivo os acordes que propagam a dor / Vivo a verdade assim dilacerada / Pela realidade, pelo mal, pelo amor“, confessa a vocalista em um ato marcado pela completa honestidade dos versos, postura também reforçada em Eu Quero Fugir (“Sonhos / São tão fáceis de esquecer / Mas eu me lembrei / Do que eu quero esquecer“)

Curioso perceber em Frame, terceira música do disco, um registro que mesmo doloroso, convida o ouvinte a dançar. “Você não morreu pra mim / Eu vou te desenterrar / Veja só as flores, a chuva / Você sabe bem / Onde ficar“, cresce a letra em meio a sintetizadores e batidas dançantes, como um olhar atento sobre o material produzido por artistas como Phantogram, School of Seven Bells e demais representantes do dream-pop-eletrônico que movimenta a cena norte-americana.

Parcialmente isoladas do restante da obra, Suas palavras gritam na minha cabeça e a derradeira Ela era uma mulher acabam estreitando a relação com diferentes artistas de Belo Horizonte. Melodias sorumbáticas que esbarram no rock triste, resultado da colaboração direta com os músicos João Lobo e Fernando Motta. A mesma poesia triste que inaugura o disco, porém, despida da base eletrônica que sustenta em essência o trabalho, passagem direta para um mundo de novas possibilidades.

Completo pela presença do produtor carioca Diego Strausz (Mahmundi, Alice Caymmi), responsável pela mixagem do disco, Não Não-Eu mostra o cuidado do trio mineiro na formação e polimento cada elemento poético e instrumental. Um registro de essência caseira, artesanal, gravado em sua maioria na casa dos próprios integrantes, mas que acaba crescendo na força dos sentimentos e histórias que se espalham de maneira honesta ao fundo de cada composição.

 


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