"Negro Swan"

Ano: 2018
Selo: Domino
Gênero: R&B, Soul, Indie
Para quem gosta de: Frank Ocean e Solange
Ouça: Charcoal Baby, Saint e Chewing Gum
Nota: 8.5

Resenha: “Negro Swan”, Blood Orange

Você me perguntou ‘o que é família?’. Eu penso em família como comunidade. Penso nos espaços onde você não tem que se encolher. Onde você não tem que fingir ou interpretar. Você pode parecer e ser vulnerável… Você se mostra como você é, sem julgamento, sem ser ridicularizado. Sem medo ou violência, sem policiamento ou confinamento. Você pode estar lá e se sentir completo. Então podemos escolher nossas famílias. Não somos limitados pela biologia. Conseguimos fazer por nós mesmos. Podemos criar nossas próprias famílias“.

O trecho declamado pela escritora, apresentadora e ativista LGBTQIA+ Janet Mock, em Family, sexta faixa de Negro Swan (2018, Domino), diz muito sobre a atmosfera e conceito explorado por Dev Hynes ao longo da obra. Quarto álbum de estúdio do cantor e compositor britânico como Blood Orange, o registro guiado pela temática do acolhimento segue exatamente de onde o músico parou há dois anos, durante o lançamento do excelente Freetown Sound (2016). Canções que encontram em núcleos e personagens minorizados – como negros, homossexuais, mulheres e transsexuais –, o principal componente criativo para a formação dos versos.

De essência política, como tudo aquilo que Hynes vem produzindo desde o amadurecer criativo, em Cupid Deluxe (2013), cada composição oculta e, ao mesmo tempo, revela um mundo de pequenos detalhes, como retalhos instrumentais e poéticos que se espalham por entre as brechas do disco. São versos declamados, quebras rítmicas e sobreposições que forçam uma audição atenta por parte do ouvinte, como um convite a se perder em um universo próprio de Blood Orange. Uma clara extensão de tudo aquilo que o músico havia testado há poucos meses, durante o lançamento das curiosas Christopher & 6th e June 12th.

Dentro desse conceito, Negro Swan se projeta como uma peça única, feita para ser apreciada do primeiro ao último acorde, sem interrupções. Assim como em Freetown Sound, Hynes continua a investir na repetição de ideias e elementos pontuais que definem a atmosfera do trabalho. São conversas com Janet Mock, o alerta reforçado pela sirene da polícia, melodias abafadas e ruídos que se espalham até a derradeira Smoke. É como se cada composição do disco servisse de passagem para a faixa seguinte, direcionamento que corrompe a formação de prováveis hits, como uma fuga do material entregue em músicas como Augustine e Best To You, ambas do álbum anterior.

Claro que esse direcionamento hermético não interfere na produção de faixas comercialmente próximas do ouvinte médio. É o caso de Charcoal Baby, colaboração com Aaron Maine (Porches) que parece pensada para seduzir o ouvinte. “Quando você acorda / Não é a primeira coisa que você quer saber / Você ainda pode contar / Todas as razões pelas quais você não está por perto?“, questiona a melancólica letra da canção enquanto sintetizadores e batidas se espalham sem pressa, mergulhando no mesmo R&B de veteranos como Michael Jackson e Prince. O mesmo refinamento ecoa com naturalidade em Saint, composição em que Hynes deixa de ser protagonista, abrindo passagem para que nomes como Ava Raiin, Adam Bainbridge (Kindness), Aaron Maine e BEA1991 assumam parte expressiva dos versos, como um reforço ao senso de “comunidade” que rege o disco.

Sensível, mesmo nos instantes menos expressivos da obra, Hynes entrega ao público um registro que cresce à cada nova audição. Detalhes que talvez passem despercebidos em um primeiro momento, como a atmosfera jazzística que invade a sorumbática Take Your Time, o flerte com a música gospel, em Holy Will, e, principalmente, a base acústica e vozes cuidadosamente trabalhadas em Smoke, composição que parece emular a boa fase de Elliott Smith, em Either/Or (1997). Mesmo faixas mais acessíveis, como Chewin Gun, colaboração com A$AP Rocky, e Out of Your League, parceria com Steve Lacy (The Internet) exigem tempo até se revelar por completo, costurando incontáveis camadas e referências.

Talvez desafiador quando próximo dos trabalhos que o antecedem, Negro Swan parece seguir a trilha de obras como A Seat At The Table (2016), de Solange, ou mesmo Blonde (2016), de Frank Ocean. Registros que se esquivam de uma estrutura convencional para explorar uma mensagem empoderadora de forma essencialmente torta, curiosa. Trata-se de uma permanente fuga do óbvio, como se Dev Hynes e os parceiros de banda pervertessem a música negra em uma linguagem particular, cuidado que se reflete com naturalidade até o último fragmento do disco.

 


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend