"New Energy"

Ano: 2017
Selo: Text Records
Gênero: Eletrônica, Experimental, IDM
Para quem gosta de: Caribou e Floating Points
Ouça: Scientists e Planet
Nota: 8.5

Resenha: “New Energy”, Four Tet

Mesmo prolífico, responsável por uma extensa seleção de obras, de tempos em tempos, Kieran Hebden parece voltar os esforços para a construção de um registro maior. Trabalhos de forte distanciamento criativo quando observados em proximidade a outros projetos entregues ao público com a assinatura de Four Tet. Experimentos de merecido destaque, caso de Rounds (2003), álbum que apresentou a música de Hebden a uma nova parcela do público, além, claro, de There Is Love in You (2010), possivelmente, a principal obra do artista inglês na presente década.

Primeiro registro de inéditas de Four Tet em um intervalo de dois anos, New Energy (2017, Text Records) é justamente um desses álbuns em que o produtor não apenas aumenta o cuidado na produção de cada faixa, como assume a busca por uma nova sonoridade, rompendo parcialmente com a atmosfera dos antigos registros. Entre arranjos e temas minimalistas, sempre delicados, Hebden desacelera, mergulhando na construção de um som onírico, como extensão sensível dos dois últimos álbuns de inéditas, Beautiful Rewind (2013) e Morning/Evening (2015).

Reflexo da profunda transformação musical de Hebden nos últimos meses, New Energy explora as mesmas nuances instrumentais, curvas rítmicas e ambientações que marcam toda a série de remixes produzidos pelo artista britânico. Adaptações curiosas como A Violent Noise, do The XX, Jungelknugen de Todd Terje e, principalmente, Kiss It Better, da cantora Rihanna, composição que sustenta nos sintetizadores e entalhes diminutos uma espécie de resumo conceitual do material produzido pelo artista para o presente disco.

Feito para ser apreciado sem pressa, o nono álbum de Four Tet joga com os instantes. São diálogos com a música oriental e passagens breves pelo trip-hop na nostálgica Two Thousand and Seventeen; ambientações jazzísticas que se conectam diretamente ao movimento das batidas em Scientists; quinta faixa do disco, Lush se espalha em meio a arranjos tribais, capazes de ampliar o território originalmente desbravado em Morning/Evening. Fragmentos orgânicos e eletrônicos que ocupam todas as brechas do disco, cuidado evidente desde a inaugural Alep, mas que cresce à medida que avançamos pelo álbum.

O mais interessante talvez seja perceber como Hebden garante ao público uma obra coesa e musicalmente hipnótica até o último segundo. De fato, três das melhores composições do registro podem ser encontradas próximas ao fechamento do trabalho. É o caso da dobradinha formada por Memories e Daughter, música que explora de forma preciosa o uso da voz, além, claro, da derradeira Planet. São pouco mais de sete minutos em que o produtor britânico passeia por diversas fases da própria carreira, costurando vozes e batidas próximas do R&B, ao mesmo tempo em que traz de volta a mesma atmosfera do álbum Pink, lançado em 2012.

Trabalho em que as principais referências de Hebden afloram com maior naturalidade — ecos de jazz, world music e experimentações eletrônicas são apreciadas durante toda a execução da obra —, New Energy convida o ouvinte a se perder no interior da cada composição. Ao mesmo tempo em que garante ao público um material essencialmente dançante, vide faixas como SW9 9SL, difícil não se deixar guiar pelo labirinto de sensações e todo o universo de experiências detalhadas por Four Tet até o último instante da obra.

 

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