"Nhanderuvuçu"

Ano: 2018
Selo: La Femme Qui Roule
Gênero: Indie, Rock Alternativo, Folk
Para quem gosta de: Nobat, Rubel e Cícero
Ouça: Cardo, Tormenta e Inverno
Nota: 8.1

Resenha: “Nhanderuvuçu”, Arthur Melo

Do ambiente bucólico desbravado em Agosto (2017), Arthur Melo vai além. Pouco mais de um ano após o lançamento do primeiro EP de estúdio, o jovem cantor e compositor mineiro está de volta com um novo registro autoral. Em Nhanderuvuçu (2018, La Femme Qui Roule), obra cujo título busca inspiração na força divina da cultura Tupi-Guarani, sentimentos e melodias cuidadosas se entrelaçam de forma mágica, sem pressa. Um lento desvendar de ideias e experiências particulares, como um inevitável convite a se perder em um universo próprio do artista belo-horizontino.

Concebido em parceria com o produtor Leonardo Marques e membros do grupo Mineiros da Lua, Nhanderuvuçu se projeta como uma parcial inversão de tudo aquilo que o músico havia testado no registro entregue há poucos meses. Salve exceções, como a derradeira Balada Para Santiago, uma canção de essência atmosférica e entalhes acústicos, todos os elementos do presente álbum se revelam ao público de forma grandiosa, em uma estrutura crescente. São guitarras psicodélicas, espaçadas e fortes, a percussão pontual e versos cíclicos que se espalham de forma complementar. Um imenso turbilhão criativo que muda de direção a todo instante, como se Melo testasse os próprios limites em estúdio.

Uma vez dentro desse universo criativo, o ouvinte é convidado a provar da poesia política e esperançosa de Força (“Eu preciso de força / Se eu quiser seguir / Nesse mundo aqui / Em que eu me perdi“), instantes de profunda melancolia, como em Eu Me Vou (“Minha felicidade / Depende só de mim / Não vou exteriorizar / O que depende só de mim / Eu me vou, sozinho“), ou mesmo flutuar em meio a delírios psicodélicos que banham a extensa Samsara (“Deixo passar / A dor que insiste / Me desfaço / No mar“). Variações instrumentais e poéticas que reforçam a evolução do músico mineiro.

Exemplo disso ecoa com naturalidade em Sol Vermelho, um misto de reggae, folk e rock psicodélico, como uma clara tentativa de Melo em se reinventar criativamente. Em Tudo Vai Passar, sexta faixa do disco, um pop rock psicodélico que parece dialogar com o trabalho de grupos como Boogarins, referência explícita nos instantes de maior lisergia da obra, como Deriva. Surgem ainda composições como a colaborativa Tormenta, música assinada em parceria com o conterrâneo Lucca Noacco e uma viagem declarada aos anos 1970, efeito da forte similaridade com a obra do veterano Milton Nascimento.

Entretanto, importante notar que a real beleza de Nhanderuvuçu se esconde justamente nas canções em que Melo mais se aproxima do universo melódico explorado no antecessor Agosto. É o caso de Inverno, faixa que se espalha em meio a arranjos detalhistas e versos guiados pelos sentimentos – “Eu aprendi o que é o amor / Aprendi a sentir dor … Eu sei você mudou e eu também / Cada um pro seu lado / Seguimos em frente“. Um fino toque de melancolia que se reflete com naturalidade em Cardo, uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, além, claro, da dobradinha composta por Azul e São, canções em que o artista mineiro confessa musicalmente algumas de suas principais influências, como Devendra Banhart, Mano Chao e Caetano Veloso.

Por vezes arrastado, efeito da longa duração de parte das faixas, como na penosa sequência formada por Samsara e Alma CalmaNhanderuvuçu conforta na mesma proporção em que parece bagunçar a experiência do ouvinte. Trata-se de uma obra guiada pela incerteza, como um convite a seguir pelo fluxo das águas que direciona a experiência do ouvinte logo nos primeiros minutos do trabalho, em La Mar. Instantes de breve desequilíbrio, ruptura e desconstrução estética em que floresce a identidade artística de Arthur Melo.

 


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