"No Shame"

Ano: 2018
Selo: Parlophone / Regal
Gênero: Pop, R&B, Hip-Hop
Para quem gosta de: Charli XCX e Lykke Li
Ouça: Trigger Bang, Higher e Lost My Mind
Nota: 7.6

Resenha: “No Shame”, Lily Allen

Desde o início da carreira, Lily Allen nunca levou uma vida tranquila, entretanto, passado o lançamento de It’s Not Me, It’s You (2009), o caos tomou conta do cotidiano da cantora e compositora britânica. Obrigações contratuais com a gravadora, o nascimento dos filhos e o desequilíbrio emocional causado pela depressão pós-parto, conflitos com a imigração dos Estados Unidos e a sempre frágil relação com a indústria do entretenimento e imprensa. Um verdadeiro turbilhão emocional que se reflete no aspecto torto dado às canções de Sheezus (2014), trabalho concebido durante esse momento de forte instabilidade e, hoje, encarado pela artista como uma obra “confusa”.

Olhar minucioso sobre esse período, No Shame (2018, Parlophone / Regal), quarto e mais recente álbum de inéditas da cantora, passeia por diferentes aspectos da vida de Allen de forma tão sensível quanto sarcástica, como fragmentos autobiográficos transformados em música. “Eu queria escrever um disco que fosse sincero e honesto, mas também não queria desapontar as pessoas que me apoiaram ao longo dos anos. Sou autoconsciente o suficiente para saber que o que as pessoas gostam em minha escrita é a franqueza e a honestidade, mas acho que a diferença entre esse álbum e os discos anteriores é que essa honestidade geralmente parte de observações de outras pessoas, como um olhar externo“, resumiu no texto de apresentação do trabalho.

De fato, do momento em que tem início, em Come On Then (“Sim, eu sou uma mãe ruim, sou uma mulher má / Você viu nas redes sociais, você leu on-line“), passando por Higher (“Chega de mentiras / Eu sei qual é a verdade / Desculpe, mas eu conheço seu tipo“) até alcançar a derradeira Cake (“Eu estava trilhando uma linha / Entre a pulsão e a sobrevivência“), poucas vezes antes um registro de Allen pareceu tão verdadeiro, cru. Mesmo o elogiado Alright, Still (2006), obra que apresentou o trabalho da cantora, em nenhum momento se projeta de forma tão franca.

Não por acaso, Allen escolheu Trigger Bang, parceria com o rapper Giggs, como primeiro single do disco, apontando a direção (poética) seguida durante toda a execução do trabalho. “Quando eu era jovem eu era inocente / Brincando com meninos rudes e treinadores … Quando eu cresci, nada mudou / Qualquer coisa valia, eu era famosa / Eu acordava ao lado de estranhos / Todo mundo sabe o que a cocaína faz / Entorpecendo a dor quando a vergonha vem“, canta de forma honesta, resgatando cenas e acontecimentos de um passado recente sem medo de parecer vulnerável.

O mesmo comprometimento se reflete na poesia sensível de Lost In Mind, canção em que reflete sobre o recente divórcio de Sam Cooper (“Agora estou presa a uma rotina, chutando pedras / Olhando meu telefone a noite toda / Talvez eu tenha perdido a cabeça“), tema que volta a se repetir em Family Man (“Eu sei que você me ama / Embora eu seja jovem e estúpido / Eu sou selvagem e implacável / Você está melhor sem mim“) e Apples (“Eu sou o culpado por toda sua dor / Eu nunca poderia ter desempenhado esse papel“). Surgem ainda preciosidades como Tree, uma balada melancólica em que discute o peso da maternidade, e o romantismo idealizado de My One, parceria com BloodPop, Mark Ronson e Ezra Koenig.

Pontuado pela inserção de faixas dançantes, caso de Your Choice, parceria com Burna Boy, além de What you Waiting For? e Waste, No Shame delicadamente se afasta de uma atmosfera melancólica para crescer como um dos trabalhos mais completos na curta discografia de Allen. Um permanente resgate emocional que a todo momento reflete diferentes aspectos da vida familiar, relacionamentos e tormentos enfrentados diariamente pela cantora, porém, sempre de forma bem-humorada, como um refinamento criativo de tudo aquilo que vem sendo produzido pela artista desde a estreia com Alright, Still.

 


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