"Now Only"

Ano: 2018
Selo: P.W. Elverum & Sun
Gênero: Indie, Folk, Lo-Fi
Para quem gosta de: Sun Kil Moon e Elliott Smith
Ouça: Distortion e Now Only
Nota: 8.5

Resenha: “Now Only”, Mount Eerie

A dor de uma separação brusca ocasionada pela morte pode até diminuir com o passar dos anos, entretanto, dificilmente será apagada. Prova disso está no mais novo álbum de inéditas do cantor e compositor norte-americano Phil Elverum como Mount Eerie, Now Only (2018, P.W. Elverum & Sun). Uma amarga reflexão sobre o luto, a necessidade em seguir em frente e a angustia da vida vazia passada a morte da esposa de Elverum, a ilustradora e musicista Geneviève Castrée (1981-2016).

Sequência direta ao material apresentado há poucos meses no fúnebre A Crow Looked at Me (2017), uma carta de despedida do músico para Castrée, o trabalho de seis faixas delicadamente amplia o conceito sofredor detalhado pelo artista norte-americana. São atos longos, sempre descritivos e melancólicos, como se Elverum fizesse de cada experiência cotidiana, mesmo as mais ordinárias, um importante componente criativo para o fortalecimento poético da obra.

Mas eu não acredito em fantasmas ou nada / Eu sei que você se foi e que eu estou levando alguma versão de você ao meu redor / Uma descrição antiga e não confiável em minhas memórias / E esse deve ser seu fantasma tomando forma”, canta em meio a camadas de ruídos na extensa Distortion. São pouco mais de 10 minutos em que Elverum se revela um personagem amargo, questionando a si mesmo sobre a forma como encara a morte e as coisas que não disse à esposa enquanto viva.

O mesmo conceito ganha contornos quase sarcásticos na faixa-título do disco. Entre versos que detalham a estranha relação do músico com o próprio público (“Tocar canções sobre a morte para um grupo de jovens drogados“), além de conversas com Father Joh Misty e a cantora Weyes Blood, Elverum canta: “Mas as pessoas têm câncer e morrem / As pessoas são atingidas por caminhões e morrem / Pessoas que apenas vivem suas vidas / Serão apagado sem motivo / Como o resto de nós que apenas observa“.

Interessante perceber na mesma composição um indicativo do que há de mais precioso dentro do presente disco: o sutil refinamento instrumental. Longe da composição crua detalhada no álbum anterior, Elverum se permite provar de ambientações acústicas que servem de complemento aos versos, lembrando uma versão torta do material originalmente explorado nos primeiros registros autorais do músico — na época, apresentado sob o título de The Microphones.

Entre referências ao trabalho do pintor norueguês Nikolai Astrup, citado em Two Paintings by Nikolai Astrup, a breve homenagem ao quadrinista Hergé, na inaugural Tintin in Tibet, e diálogos com o registro lançado no último ano, vide a derradeira Crow, Pt. 2, Elverum entrega um trabalho que exige ser desvendado e não apenas ouvido despretensiosamente pelo público. São camadas de temas intimistas e sussurros angustiados que servem de passagem para a formação de um universo próprio do músico estadunidense.

 


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