"O Estado Das Coisas"

Ano: 2017
Selo: Quente
Gênero: Pós-Rock, Experimental
Para quem gosta de: Câmera e Constantina
Ouça: Minha Sombra e Desvio para o Vermelho
Nota: 8.4

Resenha: “O Estado Das Coisas”, Matheus Fleming

Um universo de histórias, personagens e cenários explorados de maneira complexa na lenta sobreposição de uma guitarra. Em O Estado Das Coisas (2017, Quente), cada composição produzida pelo produtor e guitarrista mineiro Matheus Fleming revela ao público um mundo de emoções e sutilezas instrumentais tratadas de forma sempre provocante, por vezes mágica. Uma riqueza de detalhes que parece crescer para além dos limites da própria obra.

Personagem ativo dentro da cena mineira, Fleming que já atuou em diferentes projetos como Sci-Fi, Henrique Cunha & The Maradonnas, Seu Garcia e, o mais importante delas, a temporariamente extinta grupo Câmera, com quem lançou o ótimo Mountain Tops (2014), encontra no primeiro álbum em carreira solo um espaço aberto ao experimento. Composições que atravessam paredões enevoados de distorção, ou mesmo atos de profunda leveza e sensibilidade instrumental.

Inaugurado pela comovente Minha Sombra, o trabalho de oito faixas revela logo nos primeiros minutos um universo de pequenos detalhes e manipulações sonoras. Um som essencialmente atmosférico, minimalista, como um diálogo com a obra de veteranos do pós-rock, principalmente os norte-americanos do Slint. Texturas acústicas que flutuam em meio a nuvens de sons empoeirados e psicodélicos, base para a extensa Desvio para o Vermelho, com quase dez minutos de duração.

Terceira faixa do disco, Automático & Continuo é onde o lado mais experimental do guitarrista se manifesta. Ruídos e captações caseiras que estimulam a formação de um tema urbano, íntimo da obra do Sonic Youth. Áspera, a canção cresce de forma hipnótica, quase sufocante, encontrando na faixa seguinte, a curtinha 1985, um pequeno breve, ponto de partida para a rica formação instrumental que marca a segunda metade de O Estado Das Coisas.

Entre pequenos contrastes, Fleming acaba fazendo com que mesmo canções tão distintas, caso da dobradinha Sobre a Fuligem e Acorde pareçam dialogar entre si. Uma similaridade reforçada pela guitarra vívida que passeia por entre camadas de distorções e costuras melódicas. Um preparativo para o toque dramático da sétima faixa do disco, Depois do Sono, composição que esbarra na obra do Explosions in the Sky, porém, preservando a identidade conquistada pelo músico no decorrer do álbum.

Com a densa Ouroboros como faixa de encerramento do trabalho, Fleming não apenas amplia os próprios domínios, mergulhando na construção de um som ruidoso, hermético, como estabelece uma espécie de ponte para a primeira música do álbum, proposta reforçada no conceito cíclico que marca o título da derradeira composição. Um experimento fechado, produto das inquietações e das particularidades do músico mineiro, mas que parece maior a cada nova audição.

 

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