Resenha: “Ó”, Juliana Perdigão

Categories Melhores Discos, Resenhas

Artista: Juliana Perdigão
Gênero: Nacional, MPB, Rock
Acesse: https://www.facebook.com/perdigaoju/

 

Juliana Perdigão passou os últimos cinco anos pulando de um trabalho para outro. Em meio ao processo de divulgação do primeiro registro em estúdio, Álbum Desconhecido, obra entregue ao público em 2011, a cantora e compositora mineira criou pequenas brechas criativas, colaborando com diferentes nomes da música brasileira, caso de Maurilio Nunes, em Choro Doce (2013), Matheus Brant no recente Assume Que Gosta (2016) e até na coletânea Mulheres de Péricles (2013), um disco/homenagem ao músico Péricles Cavalcanti que ainda contou com nomes como Céu e Mallu Magalhães.

Com a chegada de Ó (2016, YB), segundo álbum de estúdio de Perdigão e obra que conta com a produção de Romulo Fróes, a cantora revela ao público uma delicada extensão de toda a sequência de parcerias, experimentos e conceitos musicalmente explorados nos últimos anos. São 17 faixas em que a artista converte em música fragmentos de poemas cotidianos, apresenta versões para o trabalho de outros compositores e ainda finaliza uma série de canções inéditas.

Acompanhada de perto pelos integrantes da banda Os Kurva — coletivo formado por Chicão (piano e teclados), Moita (guitarra e baixo) João Antunes (baixo, guitarra e violão) e Pedro Gongom (bateria e percussão) —, Perdigão parece testar os próprios limites. O samba encontra o rock de forma sempre curiosa, ruídos controlados esbarram em melodias íntimas do pop, temas atmosféricos que se abrem para a precisa interferência vocal da artista, também responsável pela flauta transversal e clarinete que costura o disco.

Dentro de uma estrutura que se desprende do óbvio, a cantora parece seguir uma trilha distinta em relação ao trabalho de outras representantes da música nacional. A cada nova faixa, um exercício isolado, como se diferentes retalhos fossem agrupados no interior do registro. Se em instantes Perdigão mergulha em temas semi-esotéricos, caso de Mãe da Lua, música que parece feita para o Secos e Molhados, no minuto seguinte, a cantora inverte a ordem do próprio trabalho, revelando canções marcadas pelo cenário urbano, caso da bem-sucedida adaptação de Pierrô Lunático.

Em Fantasma, quinta faixa do disco, um perfeito exemplo da sonoridade versátil que orienta o trabalho. Trata-se de um dueto propositadamente descompassado entre Perdigão e Fróes. Um jogo de palavras que parece crescer e diminuir de acordo com as guitarras orquestradas por Kiko Dinuci. Depois que nove virou seis, nona canção do álbum é outra que reflete a busca da artista mineira por um som essencialmente mutável. Arranjos e vozes inicialmente serenos, mas que desaguam em um oceano de distorções e versos fortes.

Mesmo centrado na voz de Perdigão, Ó se abre para a rápida interferência de artistas como Tulipa Ruiz, em Vestido Com Vista Pro Mar, Ná Ozzetti em Mãe da Lua, além, claro, do já citado Romulo Fróes na delirante Fantasma. Na construção dos versos, um time ainda maior de colaboradores. Nomes como Negro Leo (Na Frente da Bandeira), Ava Rocha e Fredy Állan (Ela é o Samba), além de Luiz Gabriel Lopes (21 Horas). Artistas que se revezam na produção da rica tapeçaria poética que se estende da abertura ao fechamento do disco.

 

Ó (2016, YB)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Ava Rocha, Rômulo Fróes e Iara Rennó
Ouça: Fantasma, Mãe da Lua e Vestido Com Vista Pro Mar

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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