"O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à sua Calma"

Ano: 2016
Selo: Falante
Gênero: Indie, MPB
Para quem gosta de: Jennifer Souza, Carne Doce
Ouça: Meu bem, Brisa e Calor, Sol e Sal
Nota: 8.5

Resenha: “O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à sua Calma”, Bruna Mendez

Foto: Vitor Garcia

Bruna Mendez parece seguir o caminho oposto de grande parte dos artistas originais da cidade de Goiânia. Longe da psicodelia, cores e parcial estado de leveza que abastece a obra de conterrâneos como Carne Doce e Boogarins, sobrevive na voz arrastada, versos entristecidos e melodias acinzentadas a base de cada canção assinada em parceria entre a cantora e Michelly Jardim. Retalhos melancólicos que se agrupam sem pressa dentro do primeiro álbum de estúdio da musicista, O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à sua Calma (2016, Falante).

Observado de forma atenta, Mendez parece se relacionar muito mais com a presente safra da música mineira do que com a essência colorida do som produzida dentro da própria cidade de origem. Difícil não lembrar do trabalho assumido pela cantora Jennifer Souza e os parceiros da Transmissor – principalmente no álbum De Lá Não Ando Só, de 2014. Mesmo a voz de Mendez, por vezes íntima do estilo de Elis Regina, soa como uma delicada interpretação da obra de Milton Nascimento pela eterna Pimentinha.

Passo além em relação ao material apresentado em 2014 no delicado Pra Ela, registro de seis faixas e primeiro trabalho de estúdio de Mendez, o novo álbum se projeta como uma verdadeira coletânea de confissões e temas sorumbáticos. Uma seleção curta, 11 canções inéditas, quase 30 minutos de duração. Músicas que se espalham de forma a revelar as desilusões de um passado ainda recente, doloroso, como se a cantora sufocasse a cada nota, a cada fragmento poético que costura o disco.

São reflexões sobre a vida a dois (“Meu bem / sei que está difícil / mas se a gente estiver grudadinho / tudo fica bem”), declarações de amor (“Vejo você dançar / Tonteio / É sua luz / Claro/  Meu bem, só tem você aqui”), atos de plena submissão sentimental (“Tudo é seu / Basta querer tocar”) e até pequenos respiros aliviados (“Neguinha, por sofrer eu não morro mais / Daquilo que me pesa, eu não busco mais saber”). Da abertura do disco, em Calor, Sol e Sal, até alcançar a derradeira Meu Bem, um doloroso e acolhedor exercício de exposição sentimental por parte de Mendez.

Flutuando em um oceano de sentimentos, perdas e desilusões, o álbum lentamente se revela como uma obra imensa e curiosamente claustrofóbica. Parte dessa percepção nasce da forte similaridade dos arranjos. Acordes sempre contidos, batidas pontuais e sintetizadores climáticos, por vezes “ocultos”, ocupando de forma sutil os pequenos respiros entre a voz da cantora e o canto triste das guitarras. Um registro que se mantém livre de versos fáceis.

Com produção assinada por Adriano Cintra (ex-Cansei de Ser Sexy), O Mesmo Mar que Nega a Terra Cede à sua Calma é um trabalho que parece crescer com o tempo, a cada nova audição. Histórias entristecidas que se misturam a ruídos minimalistas, guitarras melancólicas que sutilmente esbarram em versos apaixonados, sonhos e desilusões tão íntimas de Mendez quanto do próprio ouvinte. Canções à deriva, seguindo o movimento das ondas do mar conceitual que parece montado para o álbum.

 

 

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