"O Multiverso em Colapso"

Ano: 2018
Selo: YB Music
Gênero: Jazz, Experimental, Alternativa
Para quem gosta de: Ava Rocha e Metá Metá
Ouça: Palácio do Futuro e Tengo Piel
Nota: 8.5

Resenha: “O Multiverso em Colapso”, Guizado

Em 2010, quando deu vida ao segundo álbum de estúdio da carreira, o experimental Calavera, Guilherme Mendonça encontrou no uso voz um importante componente de transformação para o próprio trabalho. Longe das ambientações climáticas sutilmente detalhadas no antecessor Punx (2008), primeiro registro sob o título de Guizado, o trompetista paulistano passou a costurar fragmentos poéticos de forma propositadamente inexata, torta, combustível para a construção do ambiente caótico que se levanta por entre as brechas de faixas como Girando e Amplidão. Um esboço cru e naturalmente curioso do material que se revela por completo nas canções de O Multiverso em Colapso (2018, YB Music).

Sequência ao atmosférico Guizadorbital (2016), obra em que decidiu viajar pelo cosmos em busca de faixas deliciosamente psicodélicas, O Multiverso em Colapso amplia de forma expressiva a relação de Guizado com a canção. Distante da poesia abstrata que vem sendo incorporada desde Calavera, Mendonça entrega ao público uma obra feita para ser cantada a plenos pulmões. Da letra delirante que inaugura o disco no encontro entre Negro Leo e Sandra Coutinho (As Mercenárias), passando pela essência contemplativa de Sonho Delírio, colaboração com Rômulo Fróes, cada fragmento do disco serve de complemento à estranha narrativa detalhada pelo músico paulistano. Uma interpretação retro-futurista do universo cultural, exageros e elementos típicos da década de 1980.

Exemplo disso ecoa com naturalidade na dobradinha formada por Berro Melado e Modern Fears. De um lado, um pop-rock-pegajoso no melhor estilo Blitz, direcionamento reforçado na estranha composição assumida pela cantora e compositora Ava Rocha. Na faixa seguinte, um synthpop empoeirado, nostálgico, como um diálogo de Guizado com o som produzido por veteranos como Depeche Mode e Tears For Fears. Mesmo quando preserva a essência dos antigos trabalhos, como em Sobre Deuses e Demônios, música que parece saída do ótimo O Voo do Dragão (2015), Mendonça e os convidados, Thiago França (Metá Metá) e Lucas Santtana, regressam de forma quase instintiva ao pop caricato, por vezes brega, concebido há mais de três décadas.

Parte dessa transformação nasce da interferência direta de Carlos Eduardo Miranda (1962 – 2018) na co-produção do disco. Um dos últimos trabalhos assinados pelo produtor gaúcho, O Multiverso em Colapso sintetiza algumas das principais referências que serviram de base para a consolidação do registro. São composições ancoradas criativamente em clássicos da ficção científica, histórias em quadrinhos, jogos de video game, séries de TV, além, claro, de colagens instrumentais que apontam para diferentes campos da música. Um colorido desvendar de ideias e experiências que muda de direção a todo instante, vide Palácio do Futuro, música que vai do pop eletrônico ao jazz funkeado em uma estrutura que muito se assemelha ao trabalho de Kamasi Washington no colossal Heaven and Earth (2018).

De fato, poucas vezes antes um registro entregue por Guizado pareceu tão diverso quanto O Multiverso em Colapso. Do rock latino em Tengo Piel, bem-sucedida colaboração com Ava Rocha, passando pelo som labiríntico de Raskólnikov Dream, música que parece saída de algum disco do Metá Metá, à atmosfera densa que toma conta de Coração Caverna, um pós-punk sujo e invasivo, cada composição do disco joga com a experiência do ouvinte. Mesmo a faixa de abertura do disco, com seus poucos minutos de duração, mostra a completa versatilidade do artista dentro de estúdio, indicando parte da estrutura assumida pelo trompetista e seus parceiros de banda no decorrer da obra.

Cercado de colaboradores, como Régis Damaceno (guitarra), Allen Alencar (guitarra), Meno Del Picchia (baixo), Richard Ribeiro (bateria) e Zé Ruivo (sintetizadores), Guizado faz de O Multiverso em Colapso seu trabalho mais completo e desafiador desde o inaugural Punx. Ideias que se entrelaçam de forma propositadamente irregular, como se dentro de cada composição, Mendonça espalhasse informações extraídas de diferentes campos da música e cultura pop. Camadas instrumentais e poéticas que ampliam os limites do álbum a cada nova execução, direcionamento que força uma audição atenta por parte do ouvinte, convidado a se perder pelo estranho (e colorido) universo detalhado pelo músico paulistano.