"Okovi"

Ano: 2017
Selo: Sacred Bones
Gênero: Experimental, Gótica, Eletrônica
Para quem gosta de: Austra, Björk e Fever Ray
Ouça: Exhumed e Siphon
Nota: 8.5

Resenha: “Okovi”, Zola Jesus

Batidas densas e ambientações etéreas que apontam para o início dos anos 1980, lembrando um improvável encontro entre o Joy Division no experimental Closer e a boa fase de Kate Bush no clássico Hounds of Love (1986). Versos confessionais, sempre intimistas, como o reflexo de uma artista sufocada pelas próprias desilusões e rupturas sentimentais. Caos transformado em música, conceito que há mais de uma década orienta com naturalidade os trabalhos produzidos pela cantora e compositora Nika Danilova como Zola Jesus.

Primeiro registro de inéditas da norte-americana desde o mediano Tiga (2014), trabalho lançado por um dos braços da gigante EMI, a Mute, o recente Okovi (2017) não apenas marca o regresso da artista ao selo Sacred Bones Records, casa da Danilova desde o inaugural The Spoils (2009), como mostra o esforço da artista em se reinventar dentro de estúdio. Uma obra que claramente preserva a essência dos primeiros trabalhos do Zola Jesus, porém, lentamente se entrega ao diálogo com diferentes temas eletrônicos, soturnos e orquestrais.

Nascido das memórias, experiências e conflitos sentimentais recentes de Danilova, Okovi, assim como os principais trabalhos já produzidos pela cantora, Stridulum II (2010) e Conatus (2011), encanta pela força avassaladora detalhada nos versos. “Você escreve uma nota, nós escrevemos um elogio / Você drena isso, nós limpamos de graça … Preferimos limpar o sangue de um homem vivo … Não vamos deixar você sangrar“, canta na dolorosa Siphon, música em que reflete sobre a tentativa de um amigo próximo em cometer suicídio.

Entre arranjos orquestrais, quase operísticos, a crescente Exhumed amplia consideravelmente esse mesmo conceito intimista da obra. “Enterre a língua entre os dentes / Abra o maxilar e afunde profundamente / Force-o a abrir e agarre-o no aperto / Na garganta, você deixa escorregar … Deixe afundar / Não o segure“, canta em uma angustiada interpretação sobre o longo período em que Danilova esteve em depressão, aprendendo a conviver e lidar com a doença os próprios conflitos, estímulo para a poesia excruciante que ocupa toda a extensão da faixa.

Segunda chance de puxar você / Dos destroços da sua mente / Eu farei qualquer coisa que eu puder / Para arrancá-lo da borda do tempo“, canta na emocionante Witness, música que explora os traumas do eu lírico como o principal estímulo para a formação dos versos, detalhando nos arranjos de cordas um som que muito se aproximam do trabalho de Björk em faixas como Unravel e, principalmente, Joga. Arranjos detalhistas, estímulo para o fortalecimento da obra de Zola Jesus até a derradeira Half Life, música que sutilmente aponta para o mesmo universo instrumental do Sigur Rós.

Produzido a quatro mãos, Okovi — do eslavo, “grilhões” —, mostra a forte relação de Danilova com o parceiro de estúdio, o produtor Alex DeGroot — artista que trabalhou com nomes como Devendra Banhart e Britney Spears. Arranjos orquestrais e temas atmosféricos que crescem em cima de uma poderosa arquitetura eletrônica, alavancando vozes e sentimentos lançados pela cantora, como uma segura continuação do som atormentado que há mais de uma década orienta o trabalho da artista norte-americana.

 

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